sexta-feira, outubro 07, 2016

ipê-branco

Quando João tinha 14 anos, foi trocado pela primeira namoradinha do Ginásio por um babaca que jogava futebol nas categorias de base da Portuguesa. Na mesma semana, sua mãe pediu divórcio de seu pai, o deixando para morar com ele, e sua irmã mais velha anunciou que estava de mudança para a casa do noivo, praticamente casados.
João viu, de repente, todas as mulheres de sua vida saindo de fininho, como se tivessem fugindo. Nesta semana misógina de sua vida, o único conforto foi devorar todas as músicas do Ira! que seu pai guardava LPs e CDs em baús, junto com uma penca de livros da biblioteca da família.
Ele não se envergonhava de chorar, enquanto lia Alexandre Dumas, Milan Kundera ou Lygia Fagundes Telles, pelo contrário, se fortalecia nisso.
Então quando fez 15 anos, na hora de cortar o bolo caprichosamente feito pela sua mãe numa tentativa falha de parecer que se importava com João, ele desejou nunca mais sofrer pela perda de uma mulher em sua vida. Ou pelo menos não se importar mais. Desejou ser sozinho, só ele e seus livros.
Com um sopro forte, a chama da vela se apagou em cima do bolo, enquanto duravam aqueles cinco segundos constrangedores entre o fim do “Parabéns” e a escuridão.

Havia um canto da rua onde ele morava quando garoto, que de jeito nenhum alguém poderia ir lá, porque era escuro e contavam histórias desagradáveis sobre aquele lugar. Pois bem, João chegou a conclusão de que sua vida amorosa, depois daquele aniversário de 15 anos, virou um lugar escuro e cheio de histórias desagradáveis, tal qual o canto da rua onde morou.

Aos 19 anos, seu pai faleceu. Ficou se perguntando se tal feito era em consequência de seu pedido de viver sozinho, uma vez que o velho era sua única companhia. A perda de seu velho significava uma vida inteira de saudades e arrependimento pelas coisas que não disse, que não fez. Era como uma penitência por não ter dado valor quando o tinha.
Acolheu toda a coleção de livros de seu pai e jurou aumentá-la. Foi trabalhar numa livraria na Avenida Ipiranga, perto de onde morava na Luz. Absorto nas mil coisas que planejava para si, não reparava em ninguém ao seu redor, vizinhos e porteiros sempre passavam em brancas nuvens, havia um número restrito de amigos nessa fase de sua vida, seu melhor amigo Hélio do primário e outros caras da escola.

Até que conheceu Ana, nova funcionária da livraria.
As mulheres eram para ele até então como se fossem um rolo compressor cheio de espinhos que passava por cima de seu coração. Mas só do seu coração. De todas as outras pessoas no mundo, não, as mulheres eram acalento. Eram um grande ipê branco que havia no jardim de sua escola, quando floria, lhe lembrava sua mãe. Mas não floria sempre.

A garota Ana tinha um ponto de vista bem maduro da vida pós-adolescência. Ela achava que não bastava se apaixonar. As pessoas deviam ter admiração e respeito pelo companheiro. Deviam ser fãs um do outro. João se apaixonou por ela, garota esperta, cheia de experiências para contar, algumas tatuagens, franjinha anos 70, roupas ora descoladas, ora vintages, batons vermelhos e na testa a bandeira da igualdade de gênero estampada. Ana jamais seria aquelas garotas de dramas baratos. Ana era forte. Linda, divertida.
João a queria. Queria que ela entrasse em sua vida, que conhecesse seu charmoso apartamento, queria que as cervejas depois do expediente fossem para sempre, queria cozinhar com ela e queria acordar com o sorriso dela ao lado. Mas claro que tinha uma parte de seu interior que sempre que o via se aproximando dela, corria aos ouvidos dizer "corra, é cilada, ela vai fazer você gostar dela e depois vai sumir" e outra parte que dizia "se você não for lá, vai envelhecer sozinho jogando dama no Sesc Pompeia, é isso que você quer?" .

Um dia a viu chorando na porta da livraria e então, como aquilo lhe incomodou, resolveu falar. Começou já se declarando e então Ana disse que não podia, não queria, ainda aos prantos. Era a primeira vez em um ano desde que conhecera que a via chorar. Ela disse que havia acabado de descobrir que estava grávida.

Ana sumiu. E João voltou ao seu casulo de livros que o mantinha em ponto morto.
Entrou numa banda, tocava bateria. Deixou barba e cabelos crescerem. Abriu um sebo com os montes de livro que acumulara ao longo da vida. Fez muitos, muitos amigos. Criou um estilo de vida descoladinho, buscava felicidade nas coisas simples. Era fotógrafo nas horas vagas, falava mandarim e só andava de metrô ou bicicleta. Curtia bares que tocavam música ao vivo, e conhecia todos do centro. São Paulo's lifestyle full time.

É claro que vieram outras garotas, algumas duradouras, outras passageiras. João procurava um pedacinho de Ana em cada uma delas. Um sorriso de dentes brancos, perfeitos, retos, sacanas. Uma pinta em forma de estrela que ela tinha no ombro. Os joelhos tortos, o som da risada. O estilo, os cabelos. Todas as garotas tinham algo que Ana tinha. Era uma forma de nunca a esquecer, porque talvez ela era a unica que o fazia crer que podia reverter o pedido que fez aos quinze anos e não perder mais ninguém que amava.

Todas as sextas feiras a noite, era regularmente o dia de ensaio de sua banda, que no sábado sempre se apresentava num bar na periferia. Ensaiavam sempre na casa de Hélio, o vocalista, que ficava na Aclimação. Hélio era seu amigo desde que a garota do primário o trocou pelo jogador da Portuguesa. Foi Hélio que lhe apresentou o primeiro cigarro, era Hélio que o aguentava todas as vezes que falava sobre sua mãe e irmã com ressentimento, que falava de Ana. Hélio era o cara. Mas ao longo dos anos, Hélio conheceu a Ana dele, uma professora chamada Rose, casaram e tiveram filhos, e além disso, Hélio envelheceu a ponto de ficar careca e meio barrigudo. Mas ainda era seu amigo de sempre, um ator engraçado que ganhava a vida com peças bem humoradas e alguns poucos programas de TV em canais pagos. Fazia algum tempo que o casamento de Hélio e Rose não estava indo bem, e seu amigo não conseguia se expressar sobre o que estava acontecendo exatamente. Era só uma apatia, uma indiferença. João sabia disso por cima, eram homens e amigos, não precisavam de protocolos para se abrirem um com o outro. Até que uma sexta feira antes do ensaio, Hélio informa a todos que não poderia fazer o ensaio em sua casa pois estava se separando de Rose.
Dados os devidos consolos entre os homens, fizeram uma noitada de bebidas e conversa para animar Hélio. E então, quando já ia tarde e todos já estavam bêbados falando alto, ouvindo Led Zeppelin e atirando garrafas pela janela, a campainha tocou. João havia alertado para o perigo de se fazer barulho em excesso. Abriu a porta desconfiado, pronto para dar uma boa resposta trépida a quem quer que fosse seu vizinho reclamão.

E então era Ana.
Um pouco mais velha, afinal, ambos tinham 41 anos agora. Mas era ela mesma, o sorriso branco, todo certinho, os joelhos tortos, a pinta em forma de estrela.
Ela arregalou os olhos, ele mal conseguia piscar. Ana virou as costas rapidamente e foi para seu apartamento, do lado oposto. João ainda bestificado, a seguiu, mas a porta bateu em sua cara grosseiramente.
Os rapazes, percebendo o clima que se seguiu, foram embora. Em seu apartamento, João dormira com a imensa vontade de bater no apartamento 508 de Ana.

Mas o que dizer 22 anos depois? Não conseguia pensar. Não conseguia acreditar que a primeira coisa que seu cérebro sugeria dizer pudesse ser real.
Como nunca tinha encontrado Ana no prédio antes? Ela estaria casada?
João percebeu que esses anos todos, moldou sua vida de forma que se um dia reencontrasse Ana, ela coubesse ali. E agora ela estava ali e já tinha uma vida.
Precisava fumar. Sair, tomar um café na padaria. Queria falar com ela, era sua chance, mas ao mesmo tempo sentia um medo danado.
Foi até o 508, mas não conseguiu bater na porta.
Desceu as escadas frustrado, e notou um degrau estragado. Anotou mentalmente que iria subir de elevador.
Então, como se o destino tivesse cansado da novela da vida privada de João, ele se viu no mesmo elevador que Ana. Ela mal respirava ao lado dele, e ele não parava de fita-la. E então o elevador deu uma bela chacoalhada e parou. Estavam presos.
- Eu não acredito que o elevador parou.
- E eu não acredito que te encontrei. Você se lembra de mim?
- ... João.
Ficaram se olhando alguns segundos longos.
- Você sumiu Ana. Eu sempre quis encontrar você de novo.
- Eu tive que sumir. Tive alguns problemas de família.
- Você disse que estava grávida.
- Pois é, eu acabei não tendo o bebê.
Ana abaixou o olhar certamente encabulada. Ambos estavam absortos em o que dizer, Ana parecia trêmula. Quando retomaram a conversa, falaram ao mesmo tempo, praticamente se sobrepondo:
- Eu sei que fui muito babaca do jeito que te falei as coisas que sentia sobre você, mas eu precisava falar porque você era a única pessoa pela qual eu nutria sentimentos, e você me fez fazer planos que eu jamais pensei ser capaz de fazer...
- Eu tive que sumir, mas eu nunca deixei de pensar em você, fui uma idiota em ter deixado um cara como você para trás, quis voltar, quis te achar mas agora eu tenho você...

João pensou em todos os momentos que quis ter Ana por perto, e agora ela estava ali. Para ouvir suas músicas exageradas, para cozinharem juntos, para fotografarem, para irem em shows. Para terem tatuagens. Para não fazerem nada. Para fazerem as cervejas depois do expediente serem eternas, junto com os sorrisos e a companhia um do outro.
Olhava para o semblante de Ana na sua varanda algum tempo depois, um grande calor invadia sua alma. O canto escuro de sua vida amorosa passara por uma reforma e parecia ser agora um grande ipê branco florido para sempre.



Tabebuia roseo-alba



"Árvore da vida
Árvore querida
Perdão pelo coração
Que eu desenhei em você
Com o nome do meu amor" 

Arnaldo Antunes - As Árvores

quinta-feira, outubro 06, 2016

Cavalo Manco


Eu estava levando um alicate de unha para afiar numa perfumaria, quando ouvi uma voz que puxou de dentro de mim uma série de lembranças. 

Vi um cabelo loiro a minha frente. 

Me lembrei do dia que a dona daquele cabelo loiro desmaiou na escola do ensino médio que estudávamos. Estávamos prestes a apresentar um seminário de biologia na escola, mas ela não havia estudado, então ficou nervosa e desmaiou, ou fingiu um desmaio.
A conheci no caminho de volta da escola, no ônibus que por sinal era o mesmo, mas eu descia no começo da linha e ela no ponto final. Eu perdi meu cartão de passagens do ônibus e ela achou e o guardou. Tinha 500 reais de créditos lá, daria pra ela usar e economizar o ano todo. Mas ela me achou e devolveu o cartão. Viramos amigas. 
Nos intervalos das aulas, saíamos para comer lanche na cantina. Raramente Dani tinha dinheiro para pagar, então sempre dividíamos um salgado. 
Ficávamos numa mesa observando os rapazes passando, pensando e comentando sobre quem seria legal, quem seria chato, quem era bonito, quem não era. Tínhamos o mesmo olhar. 
Antes de ir embora, almoçávamos a merenda da escola. Compartilhávamos a salada. Falávamos de boca cheia uma com a outra e ainda faziamos guerra de arroz no meio do refeitório, desse jeito conhecemos muitas pessoas que queriam participar da diversão e logo éramos um grupo. 
Mas mesmo no grupo, sempre prevalecia eu e Dani, sempre dentro dos ônibus de tênis destruídos, pé em cima dos bancos, ouvindo rap ou funk e falando muito palavrão. 
No começo eu não era assim, era retraída e calada, séria. E Dani era dorminhoca, quieta, chegava a parecer melancólica. Só que quando estávamos juntas, parecia que algo dentro de mim acordava, algo realmente muito íntimo e alegre. Ou então uma revolta ao mundo como ele era, compartilhada com ela. Parecíamos um par da mesma pessoa. 
Dani gostava de um grupo de forró muito famoso na época, chamado Calipso. Perto da minha casa havia um grande poster do Calipso que ela sempre que via pendurado na papelaria, brilhava os olhos. 
Em seu aniversário, apareci na escola com o poster e a presenteei. 
Havia um rapaz que pegava ônibus conosco todos os dias. Ele tinha uma barba no queixo, um sorrisão bem claro e alegre e um olhar misterioso que eu amava. Era moreno, forte, musculoso, gostava de bandas que eu gostava. Dani sabia dessa minha queda pelo rapaz, e ele nem ao menos olhava para mim, mas falava com ela. 
No meu aniversário, na saída da escola, Dani me deixou sozinha no estacionamento da escola onde o rapaz apareceu e me puxou num beijo. Meu primeiro beijo. 
Mas ela tinha um problema muito grande com aprendizagem. Tentei ajudá-la de varias formas mas ela repetiu de ano. E na segunda vez que ia repetir de ano de novo, seus pais a tiraram da escola. 
Nos afastamos drasticamente. Comecei a namorar o rapaz do primeiro beijo. 
Soube que Dani engravidara algum tempo depois. 
"Oi Ingrid". 
Oi Dani, minha amiga. 


SEGALL - "Duas amigas" - óleo 1914

domingo, setembro 25, 2016

Desculpe o transtorno, eu preciso falar do amor

Quando eu tinha 14 anos, descobri uma traição da minha mãe com outro cara.
Ela e meu pai eram casados desde sempre e meu pai era completamente apaixonado por ela.
Fazia todos os gostos dela. Era extremamente fiel, dedicado, bom esposo. Eu, que sempre tive problemas com meu velho, admirava demais isso nele. E ela, que eu sempre achei meio mimada mesmo sendo minha mãe, estava saindo com um cara da mesma idade dela e trabalhavam juntos. Descobri porque um dia durante a noite acordei e ouvi uma conversa muito sacana e picante do tipo que só poderia ser normal se fosse com meu pai. E não era, ele, que trabalhava a noite, não usava celular durante o expediente. Minha mãe achava que eu estava dormindo enquanto eu, do meu quarto ao lado da pequena saleta, conseguia ouvir todos os pormenores. Depois disso foi só espionar SMSs no celular dela enquanto tomava banho e meu pai já havia saído. Pimba!, lá estavam mensagens para um tal de Roberto que eu peguei raiva instantaneamente. Chutei a porta do banheiro gritando "Ô mãe! Sai aí que eu preciso falar com você!" e ela confessou tudo e implorou para que eu não contasse a ninguém. Estava em choque. Eu também.
Depois disso eu comecei a achar que esse negócio de amar alguém era a mais pura balela. Porque meus pais continuaram casados mas eu tinha certeza que eram casados por comodidade. Meus avós estavam ha 45 anos juntos, e brigavam mais que tudo. Que sentido faria para dois velhinhos de 70 anos estarem sós agora? Era muito mais cômodo permanecerem casados, mesmo depois de descobrirem que não existe essa de amor.
Analisei e cheguei a conclusão de que os casais ao meu redor não se amavam de verdade. Uma tia, irmã de minha mãe que tinha problemas em conseguir namorado, casou-se com um rapaz do interior do nordeste, para ela era comodo casar com ele porque tinha sido um dos poucos a se interessar por ela e para ele era vantajoso vir para uma cidade grande.
Minha irmã mais velha, jovem e insegura, com um garoto que da vida não sabia nada, que com minha família por perto tinha mais chances de conhecer coisas e lugares. Minhas tias todas tinham um fator que fazia do casamento delas algo mais obviamente comodo do que por amor.
Então, na minha conturbada adolescência, em que eu mesmo não acreditando na balela do amor procurava uma namorada, todos os casais seguiam para mim sendo superficiais.
Eu tentava construir coisas em comum com as garotas que me relacionava. Tentava construir essas coisas que os casais tem, códigos e piadas internas, dava presentes, mimava de todos os jeitos que eu conseguia, mas nunca sentia nada que fosse significativo o suficiente. Tentei por muito tempo ainda achar o que as pessoas chamavam de amor, mas não encontrava nem nos casais ao redor, nem em mim próprio a procura de alguém. Então desisti, e deixei que o tempo me levasse aonde quisesse.
Surgiram outros problemas para lidar. Alguns que não haviam solução, outros que a solução era bem difícil e consumia meu cérebro em tentar resolver. Eu evidentemente deixei de pensar em "achar um amor", como quando era adolescente. Tinha tanta coisa para eu fazer... Achava eu que esses problemas me fariam ainda menos atrativo para o alguém, se é que ele existia.
Depois de um tempo que havia desencanado de achar o amor, e mais tempo ainda que havia iniciado minha busca, achei. E então, como se fosse o refrão daquela musica do Arnaldo Antunes:
Mas mudou, você veio
Derrubando o mundo inteiro
Demorou, mas veio
Como a hora do recreio
Era tímida mas franca. Era tão linda. Era como se só existisse ela para mim. Eu queria ela para mim a vida inteira. Era diferente mas familiar. Eu me sentia uma rua esburacada e ela um paralelepípedo perfeito. Eu sentia que já a conhecia ha tanto tempo. Não tinha lugar mais gostoso para se estar no mundo do que em seus braços. Foi um corte na minha linha temporal, e um recomeço incrível.
E tão importante quanto amá-la, era saber que era recíproco. Eu via nos olhos dela, eu sentia na voz dela, sabia o quanto ela era a vontade comigo.
Sabia que agora o tempo poderia passar, porque eu ja tinha encontrado a minha outra parte.
Não me importava mais com o relacionamento dos outros terem ou não amor. Mas lamentava por eles não estarem sentindo o quanto era sublime.





segunda-feira, agosto 22, 2016

desajustados

Estava eu num curso de graduação superior que não gostava, cheio de gente na minha sala que não eram meus amigos e que nem eu queria ser deles.
Mas um dia conheci um cara de lá e a simpatia rolou na hora. Depois conhecemos mais gente que agregamos ao nosso grupo de desajustados. Alice, Denis, Vinicius, Janaína, eu e o impronunciável.
Alice era uma menina loira, de olhos azuis, de aparência feminina e delicada. Ouvia rap, andava de tênis de skatista, boné, camiseta do Corinthians e pra nossa idade, era a mais politizada de nós todos.
Denis era desengonçado, feio, coberto de espinhas, engraçado, divertido, descontraído e o alvo da zoação.
Vinicius era magro, cabelos longos e lisos, baixo e falava coisas desconexas, fazendo todos rir, era também um verdadeiro enciclopédia humana, sobre tudo ele sabia.
Janaína, era linda, inteligente mas não demonstrava, metida a pin up, a mais bem sucedida de nós, até mesmo por estar no fim do curso que o resto dos membros do grupo era ingressante.
E o impronunciável era um cara bem curioso e simpático. Que não se chamava impronunciável, claro. Se chamava João. Mas me acostumei a pensar que pronunciar o nome dele mesmo que mentalmente era ruim. Enfim, meia hora conversando com ele, e ele se interessaria pela sua vida como se te conhecesse há muitos anos. Era alto, magro, com traços de quem no futuro ficaria um pouco mais gordo. Cabelo liso escuro porém cabeça rapada. Pele clara, algumas espinhas, bochechas rosas, nenhum sinal de barba.
Todos tínhamos entre 17 e 23 anos. Todos odiávamos nosso curso na faculdade. Todos tínhamos críticas mordazes a sociedade. E no fim, nos completávamos.
Então, apareceu o Roger.
Não que o Roger tenha sido um problema, mas ele era demais para nós.
Ele era popular, todos conheciam e conversavam com o Roger. Todos. Da faculdade inteira.
Roger era bonito e descolado, era alto, magro, sorriso cativante, andava de um jeito peculiar, todos os caras queriam ser como Roger. Usava óculos e parecia ainda mais culto. Era um geek musical. Era inteligente e antenado. Era O cara.
E por sua proximidade com Vinicius, devido a debates longuíssimos sobre neurolinguística que ambos tinham as vezes, ele começou a se aproximar de nós, os desajustados.
Não era surpresa nenhuma que João e Janaína estavam juntos ocasionalmente. Mas não era nada sério, era uma brincadeira.
Da mesma forma que o grupo todo incentivava que rolasse algo entre eu e Denis, sem nem sonharem que eu era completamente apaixonada pelo impronunciável. Foram saber quando não éramos mais um grupo.
Roger então, cativou Alice, depois cativou a mim como amiga  e me tornei sua confidente. Depois cativou João e acabou por cativar Janaína.
E se apaixonaram perdidamente, e João não gostou nada disso.
E foi o primeiro racha em nosso grupo.
Eu era louca e secretamente apaixonada por João, e era confidente de Roger e de João.
Um dia estava eu e ele a ensaiar umas musicas para um festival de bandas universitárias que João havia me chamado para participar, dentro de uma sala que tinha uma mesa de ping pong, na faculdade. E entrou Roger e Janaína, sem perceber, aos beijos. João saiu da sala furioso e Roger foi atrás se explicar, e tive que separar uma briga feia entre os dois.
Depois disso, tive que ficar me dividindo entre ouvir as lamurias de Roger e os xingamentos do impronunciável sobre Roger.
Até que um dia, conversando com Alice sobre esta merda toda, ela disse que consertaria a briga dos dois.
Eu não sei o que ela fez, mas um dia, ao entrar na faculdade e ir para o lugar onde sempre ficávamos: o jardim de inverno de uma luminária só, vi Roger e João abraçados, chorando, se jurando como irmãos.

Eu mal sabia que aquele era o começo do meu fim. 


***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***

quarta-feira, julho 27, 2016

A fuga do notívago

O cheiro fétido da rua com esgoto vazando enchia o nariz, mas depois de 15 minutos passava a ser “acostumável”.

Tinha uma vontade imensa, insubstituível mas não conseguia satisfazê-la. Eram três e meia da madrugada e ele estava no meio da rua. Andando em círculos, meio sem rumo. Insone.

Um grupo grande de mendigos dormia na praça a sua frente. Alguns poucos travestis faziam ponto do seus serviços oferecidos também na praça. A frente, revelado por árvores, aparecia o imponente prédio da Secretaria de Educação de São Paulo, com sua coloração em tom de amarelo parecendo feita de tijolos de ouro.

Fazia 21 graus, era Março de 2012.

Aurélio sentara num ponto de ônibus, tentava se concentrar no que queria estar fazendo naquele momento.

Claro, tinha muita coisa que podia estar fazendo. Mas ele queria estar com sua filha.

Apagou o quinto cigarro dessa noite, já fazia 3 horas que estava perambulando pela República. Já era a oitava noite não consecutiva que fazia isso, estava realmente com muita saudade de sua filha.

Ela tinha 4 anos, estava morando na Alemanha com a mãe dela. Nunca imaginou que o fruto de uma noite inconsequente fosse gerar um amor tão grande. Ela tinha a diastema igual a sua e covinhas como a mãe.

Fechou os olhos, viu ela brincando com uma penca de brinquedos que Aurélio guardava em sua casa para quando ela voltasse ao Brasil.

Um homem estava sentado na extremidade do longo ponto de ônibus que escolheu, mas parecia enrolado num cobertor e adormecido. Permaneceu de olhos fechados no ponto de ônibus, com as mãos no bolso e em pé.

Sentiu um tipo de paralisação do seu corpo, por um milésimo de segundo.

Algo havia mudado. Ouviu um zunido alto de vento. Abriu os olhos e estava num quarto, um grande pôster do Gummy Bear o saudou numa parede do lado esquerdo. Uma cama tipo dossel estava levemente iluminada no centro do quarto.

Era sua filha, ressonando, dormindo gostosamente em algum lugar da Alemanha. Sorrindo, acariciou sua bochecha.

Não entendia o que tinha acontecido mas ele estava realmente no quarto dela. Colocou a mão em seu próprio rosto, tocou uma espinha na testa e sentiu uma leve pontada de dor, o que provava que era real aquilo.

Abraçou sua menina, que acordou assustada no mesmo minuto resmungando “papai!”

Quando a largou, durante uma piscada, voltou a estar no ponto de ônibus da República.

Não entendia nada do que tinha acontecido. Mas sabia que era real, a imagem de sua menina ainda estava gravada na retina.



"Eu sei que quando anoitece
Nos teus sonhos também estremece
A vontade de fugir, então siga por ali
Vire aquela esquina e vamos partir"

terça-feira, julho 26, 2016

Paisagem Idiótica

Estava a olhar para uma paisagem que eu chamo intimamente de Paisagem Idiótica.

Lembrei de alguém que me contou que havia um lugar do mundo que as pessoas podiam escolher morrer. Não era eutanásia, nem suicídio assistido. Era assassinato mesmo, as pessoas que queriam morrer iam vendadas para um campo entre montanhas onde eram acertadas por um tiro certeiro. Era um método clandestino, as autoridades faziam vista grossa e tudo aquilo era um tipo de serviço social.

Quando me contaram isso, pensei na mesma hora na agonia que deve ser ir para um lugar esperar a morte.

Seria mais agonizante do que a tal paisagem?

Um mar de vidros e ar condicionados grudados na janela, com um pequeno recorte azul do céu que passava despercebido, enquanto a gente acha que viver é acordar e vir pro trabalho e ela passa na nossa cara todo dia.

Recentemente uma propaganda me chamou a atenção, ela falava da natureza implícita em nossas vidas sem percebermos, e como estávamos desperdiçando o espetáculo todo dia. O vídeo do comercial dizia algo como “embaixo do prédio, terra”. Os publicitários envolvidos nessa propaganda tinham noção de estar perdendo toda essa natureza hipervalorizada ao ficarem em escritórios criando algo voltado para alimentar o consumismo?

Queimei meus dedos na ponta de um cigarro, era o meu momento de descanso chegando ao fim.

Saí da janela do escritório, abandonei a paisagem.

De volta a mesa, problemas que eu não podia resolver. E nem queria resolver. Não eram meus. Porém, me garantiam salário no fim do mês.

Era como se depositassem um saco de 50 kg em cima dos meus ombros e me dissessem o tempo todo “não se mexa, você aceitou não se mexer quando topou trabalhar aqui”.

E todo dia, no fim do expediente, eu saía do trabalho com uma sensação mais leve de deixar o peso la dentro do escritório, mas ainda assim, dolorido por tê-lo aguentado sobre os ombros o dia todo. Era uma sensação feliz, o fim do expediente, mas era também meio triste. Era como se eu soubesse que não dava tempo de fazer muitas coisas até ter que voltar pro escritório no dia seguinte. E por achar que não dava tempo de fazer muitas coisas, acabava não fazendo nada.

Eu era inconformado com a Paisagem Idiótica.

Era a cobertura comercial de onde eu trabalhava, na Grande SP. Era uma vista desoladora de pessoas enjauladas, suponha que você visse um dia bonito numa imagem, e nessa imagem tivessem vários animais fofos e meigos em jaulas e gaiolas? Era essa minha sensação. “Mas Aurélio, e se os animais quiseram estar nas jaulas e gaiolas por terem comida garantida?”

Aí eu concluo de que é ainda mais triste, a Paisagem.

No metrô, silencio. Cada um com seu celular.

Quando era menino, eu achava que ser adulto era conversar com todo mundo, conhecer todo mundo, poder falar o que quiser com quem quiser. Porque eu sempre ouvia “não fale com estranhos” e achava que isso era só porque eu era criança. Ninguém nunca diz “não fale com estranhos” para adultos. Agora eu entendo o porquê.

O estranho é você.

Todo mundo se torna estranho.

Queria muito que fosse como eu achava que seria. Achava que ser adulto era legal, e de alguma forma, estava intimamente ligado a natureza, porque não conseguia viabilizar uma cena que não tivesse uma arvore, um ceu, um pedaço de terra.

Mas a gente passa de trem por algumas arvores e as vê gritando “pelo amor de deus, me dê atenção, eu sou a natureza” e acha normal encontrar tudo cheio de lixo.

No dia seguinte, de volta a paisagem onde eu sempre morro e renasço pronto pra morrer no próximo dia com meus 50 kg de problemas dos outros, eu cheguei à conclusão de que estamos sempre no limiar da morte. Como se todo dia pudéssemos ir pro lugar onde tomaríamos o tiro certeiro e antes do derradeiro fim, desistíssemos. Nós, os estranhos, alimentamos uma esperança igualmente estranha.

Como se soubéssemos que não tem jeito, que nada vai mudar nunca. Minha geração não conhece outra verdade quem não seja essa de trabalhar. Mas ficamos planejando quando um dia isso pode acabar.

Essa noite não consegui dormir. Fiquei variando de madrugada, sonhei que uma onda gigantesca açoitava a paisagem idiótica até destruí-la completamente, seus ar-condicionados despencando, as pessoas nas jaulas caindo fatalmente e eu observando tudo da janela do meu escritório, com um cigarro nos dedos.

Talvez essa fosse minha estranha esperança.


"Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida."


quinta-feira, junho 23, 2016

FACILITE O TROCO OU ENTÃO LEVA BALAS

– Deu R$ 5,20 senhor.
– Toma aqui uma nota de 10.
– Tem 20 centavos?
– N…n…não…
– Cara, é melhor que tenha…
– NÃO POR FAVOR CARA EU TENHO FAMÍLIA
– DÁ LOGO A PORRA DOS 20 CENTAVO
– EU NÃO TENHO
– AH ENTÃO VAI LEVAR BALA
– NÃO CARA POR F… (sons de tiros)
– …
– Da próxima vez, facilite o troco.



terça-feira, junho 14, 2016

Monólogo intimista sobre o capitalismo

Eu sentia uma raiva inexplicável desde os 11 anos, e nada neste mundo foi suficiente para suprimi-la ou consolá-la.

Não entendia porque algumas pessoas podiam ter coisas, comprar coisas que eu não podia ter. Quando criança, achava que a culpa era de meus pais que tinham dinheiro e não queriam comprar. Até que fiz aniversário uma vez, 12 anos acho, e pedi um Nike a minha mãe. E só então depois de ver o esforço que ela teve que fazer para me presentear com um tênis de 300 reais, é que notei que havia algo errado. Não era minha mãe. Não era o tênis. Não era o trabalho desvalorizado da minha mãe como professora, que pagava ralo demais.

Era que eu tinha que ter o tênis, e porque queria era complicado demais explicar. Toda aquela baboseira que muitos já sabem sobre se vestir com roupas de marca para mostrar que você é alguém, todo o blablabla da adolescência.

Mas não bastava desconstruir isso. Eu podia ter me tornado um adolescente de 17 anos que usava um tênis barato e popular e não dava a mínima para marcas. Mas esse lance todo de marcas foi só a ponta do iceberg.
Tinha amigos na mesma situação. Então percebi, 90% das pessoas que eu conhecia eram pobre. Não tinham como esbanjar dinheiro comprando um tênis da moda sem desfalcar dinheiro de algum lugar.

E a raiva continuava, como um animal rugindo dentro de mim.
Então, aos 17 entrei no primeiro emprego. E a ficha da realidade caiu como um elevador solto no fosso.

Então pra eu ter um tênis e ser socialmente aceito, devia passar horas sentado a frente de um computador realizando ligações e causando incomodo as outras pessoas... aquele emprego era errado por diversos motivos. Mas mesmo que eu listasse porque aquele emprego era tão ruim, a questão não era o emprego. A questão era porque trabalhamos e porque tínhamos que trabalhar, porque devíamos nos preocupar tanto em ganhar dinheiro e querer ter dinheiro, sabendo que nem se trabalhássemos a vida toda, não teríamos 1% do dinheiro que 1% da população tinha, e que havia uma grande quantidade de pessoas no mundo que jamais teriam nem ao menos as mesmas oportunidades que eu tinha pra ter a minha miséria.

Eu não podia ser grato a tudo isso. Não queria me conformar com a miséria, nem com a venda do meu tempo, disposição e juventude em troca de dinheiro. Eu queria trocar meu tempo por algo que fizesse sentido.

E seguia com raiva inflamada no peito. Berrando, vibrando e me avisando que um dia escaparia para fora de mim.

Diante de tanta revolta crescendo como um cogumelo na chuva, alguns outros pontos foram sendo esclarecidos, até virar um problema claro, óbvio e constante no meu vocabulário: o capitalismo.

Eu sempre me lembrava do Nike com certo peso na consciência, porque fiz minha mãe comprar um Nike na adolescência só para mostrar que tinha um tênis de marca. Ficava, naquela época, a manhã inteira assistindo TV, desenhos animados e seriados mostrando a vida estereotipada dos norte-americanos, seus Nikes, seus celulares, seus carros. Eu fui enganado a adolescência inteira. Fui seduzido para ser como eram aquelas pessoas, imaginando que se fosse como elas, os problemas que eu sentia passariam. A raiva que rugia, não existiria, porque aquelas pessoas não tinham a aparência de ter raiva dentro de si. Mas foi só ganhar o Nike pra perceber que era tudo mentira, depois do tênis eu ainda me sentia pior. Mais pobre, com aquelas pessoas norte americanas ainda mais distantes de mim, porque para mim, ganhar um Nike era um evento, para elas era comum.

Isso foi amadurecendo de uma tal forma durante o período do meu primeiro emprego, que comecei a idealizar uma vida sem dinheiro. Mas quanto mais idealizava, mais achava impossível conseguir, não com a TV, rádio e outdoors bombardeando o tempo todo de que você precisa de coisas que você não precisa e ter o corpo predeterminado por marcas, empresas e grupos de pessoas que não sabem nada sobre você e te tratam como número. E mesmo que com o tempo você se torne imune a propaganda, as pessoas ao seu redor não, e cobram de você a vida que o capital quer que você tenha.

Aos 20 anos fui vencido. Estava cursando uma faculdade cujo objetivo era formar pessoas para o mercado de trabalho, e claramente eram censurados os ensinos que se desviassem desse foco para algo mais culto e acadêmico. Eu estava lá, fazendo parte desta palhaçada, trabalhando e tendo medo de perder meu emprego, tendo medo de ficar sem dinheiro. As coisas que possuía, acabaram me possuindo. O desejo de tê-las também. A cobrança da família e do capital latejavam em minha mente. Me envolvi com movimentos sociais na esperança de amenizar a sensação de fracasso, e acredito que muitas das pessoas que conheci lá também tinha isso em mente. Mas, a burocratização de como esse tipo de coisa se dá hoje em meu espaço, não por acaso, era desmotivador.

Depois dessa experiência detestável e frustrante, onde muito se quer fazer, mas nada é feito de fato, a raiva, aquela que ficava rugindo e vibrando dentro de mim, alastrou.

As pessoas criam esperança onde menos parece provável. Em algum deus, por exemplo. Algo sobrenatural para salvar-lhes dos problemas que elas tem. Criam teorias baseadas em relíquias históricas, levam a sério algo porque alguém antes dela levou a sério e usam disso para justificar todos os atos que o capitalismo lhes obriga a fazer. Inventam, mentem e manipulam sem dó, porque todo mundo quer o perdão por ver tanta coisa absurda sendo feita e não estarem fazendo nada. Não é normal que 1% da população seja rica e possam ter seus Nikes enquanto o resto se mata para ter um, mas o capitalismo faz você achar que sim. E a religião justifica isso, ou perdoa. Mas todos sabemos que é tudo mentira, no interior de nossos corações. As religiões são uma mentira.

Em outros casos, há a alienação. Teóricos muito inteligentes já explicaram sobre isso muito antes de minha mãe me dar a luz. Mas a questão não é tanto a alienação de fato, porque acreditar que ainda hoje no séc. XXI há pessoas que não conseguem ver o que está acontecendo, que estamos nos matando por dinheiro, é impossível. Todos sabemos o que está havendo, sabemos que há algo que não deu certo, e que não devíamos nos conformar. Mas nos conformamos. E pior, deixamos que todos acreditem que nós não estamos vendo. Que nosso único interesse é o pão e circo. Pior que mentir para os outros, é mentir para si. E quando fingimos que não vemos as mazelas do capitalismo, estamos mentindo para nossa própria existência.

E mais recentemente, é fácil observar o que eu acho que é o pior caso de todos, que é quando, a balança dos sentimentos ruins fica mais pesada que a balança dos sentimentos bons, na relação entre as pessoas. O pior dos casos, é quando o indivíduo concorda com o estupro mental e financeiro do capitalismo. Quando apoia e se afirma militante ativo das causas capitalistas. Talvez já calejados de sentir a raiva batendo quando o consumismo vence, quando o desejo pelas coisas se torna superior do que a compaixão e o caráter.

Você não é o que você tem, você não é as coisas que compra. Falta entender que tudo no capitalismo é efêmero, o tempo é a única coisa que possibilita alguma riqueza. Cabe saber do que vale a pena ser rico.





Eu sou a constante especulação de Jack.

segunda-feira, junho 13, 2016

Esperando pt. 1

EXT. PONTO DE ONIBUS CHEIO DE UMA AVENIDA MOVIMENTADA, FIM DE TARDE


Dois homens de roupa social esperam seus respectivos ônibus em pé, sem se olharem e ambos olhando para a rua, no sentido de onde vem os ônibus.

HOMEM 1

Sabe, queria fazer algo significativo, que desse sentido a minha vida. Um emprego que mudasse a vida das pessoas, que fosse de fato importante!

HOMEM 2

E o que você está esperando?

HOMEM 1

O ônibus, e você?

HOMEM 2

Também...

terça-feira, maio 24, 2016

mais uma história de não-amor em São Paulo

Eu não me lembro como nem porquê puxei conversa com um senhor que catava latinhas. Era cinco da manhã, o primeiro ônibus do dia pra minha casa estava para passar e eu deveria manter a atenção.
Mas não resisti, achei que aquele senhor poderia ter um bom papo, talvez pelo bom gosto de se vestir usando All Star vermelho cano alto mesmo sendo simples e aparentemente, um morador de rua.
Disse que o All Star estava com ele há muitos anos, desde a época do divórcio.
Fiz a besteira (ou não) de perguntar “Que divórcio?”
E eis que o senhor começou a me contar uma história, talvez a sua, talvez ficção. E eu lhe dei atenção, talvez por estar bêbado demais para me negar a isso.
Ele me disse que a tinha conhecido na faculdade. Ele cursava Matemática e ela Letras “com ênfase em Sueco”, como fez questão de me lembrar.
“Se chamava Sandra, tinha um ar hippie. Sorriso bonito, delicada mas pragmática. Prática.”
“Então o senhor tem ensino superior?” o velhote fez um “o” completo com a boca, surpreso. “Mas claro que tenho meu filho, eu tenho mestrado na Bélgica, inclusive”.
Percebi logo que poderia ser verdade, uma vez que notei que o senhor não falava com muitos erros e tinha um porte diferente dos demais moradores de rua.
Continuou me contando que começara a namorar Sandra durante uma greve dos professores de sua faculdade. Ela era do movimento estudantil, naquela época, anos 70, ser do movimento estudantil geralmente era o mesmo que se dizer de esquerda. Ou seja, para a época: comunista.
Acendi um cigarro, ofereci, negou.
Se apaixonaram automaticamente, começaram a namorar ao mesmo tempo que cursavam o último semestre de seus cursos.

Após a formatura, começaram a se afastar gradativamente da política. Queriam executar seus planos, queriam constituir família. Mas ele tinha medo, Sandra é que pressionava. Eram de famílias digamos menos pobre que o resto do Brasil. Afinal, nem ele nem Sandra nunca haviam pago a faculdade com dinheiro de seus trabalhos, mas sim dos seus pais.
Ele arranjou emprego numa grande multinacional, fruto do contato de seu pai com diversos executivos e o próprio CEO da tal empresa de origem francesa. Em três anos nessa empresa, teve que se mudar para França, e aí não havia mais como adiar o casamento que Sandra tanto queria.
Casaram-se ainda no Brasil, tradicionalmente como gostava as famílias de ambos classe média.
Foram para França em 83, e não queriam saber mais de nada.
Sandra não trabalhava, mas também não precisava, ele provia todas as despesas da casa tranquilamente com o salário deste emprego.
Aprenderam francês juntos, aprenderam a viver confortavelmente em For Sur Mer, fizeram amigos, e Sandra engravidou em 1986, depois desses três anos muito confortáveis. Ele até queria voltar para o Brasil mas agora com essa gravidez, o melhor era continuar vivendo ali até que o bebê tivesse uma idade razoável.
A criança, menino, cresceu com nome de Edgard, sendo educado numa escola franco-brasileira que lhe permitia desenvolver tanto o português como o francês. Aprendeu tudo o que podia sobre as artes e era um exímio artista.
Neste momento meu ônibus passou, mas fingi que não vi e continuei a ouvir a história. Era mesmo improvável que o homem bem sucedido dessa história hoje tivesse catando latinha na Rua da Consolação. Então eu queria saber até onde ia.
O menino ainda mora na França, em Pertuis, próximo de onde cresceu com ele e Sandra. É artista plástico.
Pensei, e como pode deixar o pai neste estado, com idade tão avançada?
Continuou me contando a história, mesmo tendo percebido que algo me passava pela cabeça. Esse velho é bom, pensei.
Cinco anos depois do nascimento de Edgard, era hora de planejar a volta para o Brasil. A empresa pedia, a família concordava, então que voltasse.
Disse que veio no início de 1991 aqui em São Paulo para acertar detalhes de moradia. Trouxe Sandra e o menino. O casamento ainda ia bem.
Voltaram para a França depois entusiasmados com a mudança, a volta pra casa. E então Sandra descobriu que estava grávida de novo.
Adiaram longos e frios 6 anos de volta ao Brasil. A criança, menina desta vez, nasceu saudável, alegre e linda. Era o centro das atenções da família. Isadora, loura de cabelos finos e delicados, ficou com toda a beleza da família nos genes.
Eu vi nessa hora um lampejo louro nos cabelos sebosos do senhor, talvez ele tivesse sido apresentável um dia. Sem cheiro de sujeira, sem buracos remendados em sua blusa de lã.
O dia estava nascendo, era um domingo de manhã e ainda tinha gente estranha bêbada voltando das baladas.
Mas eu quis ouvir o resto da história, e o convidei para ir tomar um café numa padaria perto da República.
Uma vez na padaria, pingado e pão na chapa, me contou que nesses seis anos finais em For Sur Mer, resolveu estudar. Se sentia sufocado “aquela coisa que dá depois de 10 anos casados”. Então fez mestrado em Ciencias Econômicas e alguns MBA, em várias universidades pela Europa. Chegou a ficar 3 ou 4 anos fora, apenas estudando. Voltava para casa aos feriados e férias, ficava um pouco com a família, mas não sentia saudade. “Eu era frio, meu filho. Eu não ligava para eles, achava que meu dinheiro sustentando-os era suficiente”.

Quando parou de estudar, notou que havia perdido boa parte da criação de sua menina, uma parte importante do crescimento de seu menino e o pior de tudo, o amor de sua Sandra.
No início dos anos 2000, já de volta ao Brasil há 2 anos, morando confortavelmente em bairro nobre de São Paulo, ficou mais 7 anos forçando um casamento que não queria mais.
Trabalhava muito, viajava muito a trabalho, e perdia de propósito os momentos importantes com a família.
“De propósito”
“Porque de propósito?”
E me explicou que havia se enganado sobre Sandra. Que ela já não era mais a menina hippie de sorriso encantador. Ela era uma quarentona chata, com a bunda caída e que não saia de casa, não se vestia direito nem para si nem para ele, engordou, “enfeiou”, como fez questão de dizer.
Que babaca, logo pensei.
Em 2007, numa viagem a trabalho em Nova Iorque, conheceu uma arrumadeira num hotel que estava hospedado. Brasileira, imigrante ilegal.
Começaram a sair, ela era 15 anos mais nova que ele e isso parecia o máximo para ele.
Não sabe dizer se era apaixonado por essa. Mas se divorciou de Sandra, deixando-a com Isadora.
Essa moça, 15 anos mais nova, era simples, do sul, não era um poço de beleza e nem era culta como Sandra. Mas era o suficiente, cuidava dele e o fez sentir-se rejuvenescido. Mesmo que sua menina não gostasse dela. E nem ela de sua menina.
Um dia brigaram feio, a filha e a moça. Então depois disso perdeu contato com todos, só falava de vez em quando com Edgard que continuava na França.
E então, me disse que um dia a moça lhe pôs pra dormir e levou tudo o que tinha. Dinheiro, documentos, relógios, joias, absolutamente tudo. Passou bens para seu nome, tinha procurações falsas. Fez um esquema tão bem preparado, planejado há anos quem nem a aposentadoria ele conseguia provar ser sua.
Sem conseguir provar nada a respeito de sua verdadeira identidade, foi morar na rua.
Contou que o arrependimento por ter deixado Sandra recaiu sobre seus ombros de uma forma tão cruel, que ficou dois anos sem pronunciar nenhuma palavra. Achavam que ele era mudo. Mendigo e mudo.
“E como se recuperou?”
“Eu vi Isadora e Sandra saindo do hospital, ano passado. Isadora a levou. Meu peito quase explodiu!”
Disse que passou a acompanhar todas as idas das duas no hospital. “Ali no Albert Einstein sabe? Eu fico por ali agora.”
Perguntei se teria coragem de abordá-las. Ele disse que sim, e que estava catando latinha para conseguir algum dinheiro para ficar decente e falar com elas. Não queria que elas o vissem como um mendigo. Mas disse que havia 2 meses que não via as duas indo ao hospital e que tinha medo de que algo tivesse acontecido. “Sandra deve ter uns 70 anos agora. Estava bem velha quando a vi”
Percebi que seus olhos estavam marejados. Não quis imaginar o que haveria de acontecer a este senhor se Sandra tivesse morrido. Tirei uma nota de 20 do bolso e lhe entreguei. Dei dois tapas amigáveis em seus ombros e me despedi.
Lá fora, o céu azul bem claro, a poluição, as buzinas, dava o tom de normalidade paulistana. Eu não tinha uma boa sensação, mas não havia porque se preocupar, eu não era casado, eu não tinha Sandra. Meu ônibus passou, entrei.
Eu nunca mais saberia se Sandra estava viva, o amor da vida de um homem que eu nem sabia o nome, mas torcia pela história. E que história.