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segunda-feira, janeiro 08, 2018

vias de fato

Havíamos ido visitar um ex-professor da faculdade que estava se divorciando portanto vivia muito solitário e gostava de nós, os desajustados. Janaina se ofereceu para nos levar de carona, então em seu carro fomos eu, o impronunciável, Alice, Denis e Janaina guiando, é claro.
Foi uma noite agradável, depois de tanto tempo sem sair juntos, ainda éramos os mesmos desgraçados da cabeça de sempre, mesmo faltando Vinicius que àquela altura já havia se mudado para o interior estudar Filosofia. Roger já não fazia mais parte do bando, e eu e João tínhamos ficado meses brigados sem ao menos conversar, fingindo negar a existência um do outro, as pazes era algo recente, fresco batendo em nosso vazio interior que outrora era preenchido pela presença do outro. Mas essa parte da história fica para outro dia.
O objetivo dessas histórias todas é retirar da minha mente qualquer alusão a pessoa a quem eu me refiro como impronunciável, que para quem acompanha a série "Janeiro" o nome já foi revelado, e tacar no papel este monte de besteiras ricamente insignificantes.
Pois bem, nem preciso mencionar que eu seguia apaixonada, pouco mais de um ano depois de tê-lo conhecido, de ter formado o grupo de amigos da faculdade, etc. Eu me sentia a mais imatura do grupo e talvez fosse mesmo.
Na volta da casa do professor, já de madrugada, eu tive dó de fazer Janaina viajar 25 km São Paulo a dentro só para me deixar em casa e a pedi para me deixar no centro de São Paulo. Não prestei atenção direito e vi que outra pessoa pediu o mesmo a Janaina, eu já estava meio alta de gim tônica e distinguir vozes nunca foi uma qualidade minha.
Quando eu só podia ver as luzes traseiras do Celta da Janaina me deixando na Consolação é que me dei conta de que estava a sós com João. Sem transporte público para voltar pois eram 2h da madrugada. Sem dinheiro vivo, sem caixas eletrônicos 24h por perto. Ventando bem frio em pleno mês de junho e eu estava sem qualquer blusa mais grossa.
A vontade era chorar, sentar na calçada e verter lágrimas sem fim, mas João estava incansavelmente bem humorado. Resolvemos beber num boteco ali perto.
E bebemos uma Maria-Mole. Duas. Três. Depois um Rabo-de-Galo como saideira e rumamos para uma praça perto dali onde o vento fazia um "zum" interminável.
Eu tremia quase que automaticamente, não sentia frio mas não conseguia fazer meu corpo parar de tremer. O termômetro de rua indicava 11 graus. De repente, em uma daquelas ideias idiotas típicas de bêbados, eu pensei em me declarar para João naquela noite. Ora, já havia meses que eu estava sofrendo aquele desejo que me queimava por dentro como uma grande chama no meio de uma noite longa e fria, tal qual aquela que vivíamos.
Falávamos banalidades, sobre jogos, sobre mulheres, sobre musica, sobre nosso futuro na profissão que escolhemos, e então sem me lembrar exatamente como, João deu de falar sobre seu pai.
Acontece que o pai de João possivelmente havia sido um canalha. Abandonou a mãe ainda grávida, casou-se muitas vezes depois com mulheres jovens que ia trocando conforme elas envelheciam. Quando adquiriu câncer de pulmão, veio procurar João dizendo que se arrependeu de ter sido um pai ausente. E o impronunciável caiu nessa, carente de pai que era. E quando estavam se conhecendo e indo tudo bem, o pai morreu.
João era o pior orfão de pai que eu conheci. Desatou a chorar e falar de seu velho, e eu que antes de tudo era sua confidente, ouvi e consolei a perda que era recente, mas não tão recente quanto nossa amizade. E desisti de me declarar, naquele momento comecei a reconsiderar o porquê havia me apaixonado por João.
Bom, se fosse fácil descobrir o motivo, nada da nossa história haveria acontecido, tampouco estas histórias tolas ladras de tempo.
Um rapaz passou vendendo brigadeiros e eu na maior inocência, comprei uma para cada um achando que chocolate daria um jeito na nossa bebedeira (na realidade, na bebedeira de João, o dramalhão dele havia cortado meu barato). Devoramos os brigadeiros e uma chuva torrencial caiu. Corremos para nos esconder dela através de uma ladeira, descíamos quase junto com a chuva que formava pequenas quedas no meio-fio. Encharcados, começamos a rir muito, a sensação era de estar numa montanha russa, a rua dançava diante de nós, o chão fazia ondas igual uma praia. Uma praia de chuva, escuro e frio. Rimos muito enquanto descíamos a rua na chuva e quando finalmente encontramos uma marquise para nos esconder, João me beijou. Me prensou na porta fechada de um estabelecimento, me deu um beijo tão profundo que alcançou minha alma. Eu explodia de felicidade, um minuto que eternamente em minha lembrança durou anos do mais sincero reflexo da felicidade. E desejo, e meu corpo transformado em pura tremedeira, pernas completamente bambas, mente atingindo o nirvana da satisfação amorosa.
O beijo acabou, a noite virou manhã que viramos comendo salgados numa padaria.

Algum tempo depois, eu perguntei para João desta noite sem mencionar o beijo.
Ele disse que não se lembrava de nada, a ultima coisa em sua lembrança era que ele chorou e eu havia comprado brigadeiros.

Malditos brigadeiros de maconha.








***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***


segunda-feira, agosto 22, 2016

desajustados

Estava eu num curso de graduação superior que não gostava, cheio de gente na minha sala que não eram meus amigos e que nem eu queria ser deles.
Mas um dia conheci um cara de lá e a simpatia rolou na hora. Depois conhecemos mais gente que agregamos ao nosso grupo de desajustados. Alice, Denis, Vinicius, Janaína, eu e o impronunciável.
Alice era uma menina loira, de olhos azuis, de aparência feminina e delicada. Ouvia rap, andava de tênis de skatista, boné, camiseta do Corinthians e pra nossa idade, era a mais politizada de nós todos.
Denis era desengonçado, feio, coberto de espinhas, engraçado, divertido, descontraído e o alvo da zoação.
Vinicius era magro, cabelos longos e lisos, baixo e falava coisas desconexas, fazendo todos rir, era também um verdadeiro enciclopédia humana, sobre tudo ele sabia.
Janaína, era linda, inteligente mas não demonstrava, metida a pin up, a mais bem sucedida de nós, até mesmo por estar no fim do curso que o resto dos membros do grupo era ingressante.
E o impronunciável era um cara bem curioso e simpático. Que não se chamava impronunciável, claro. Se chamava João. Mas me acostumei a pensar que pronunciar o nome dele mesmo que mentalmente era ruim. Enfim, meia hora conversando com ele, e ele se interessaria pela sua vida como se te conhecesse há muitos anos. Era alto, magro, com traços de quem no futuro ficaria um pouco mais gordo. Cabelo liso escuro porém cabeça rapada. Pele clara, algumas espinhas, bochechas rosas, nenhum sinal de barba.
Todos tínhamos entre 17 e 23 anos. Todos odiávamos nosso curso na faculdade. Todos tínhamos críticas mordazes a sociedade. E no fim, nos completávamos.
Então, apareceu o Roger.
Não que o Roger tenha sido um problema, mas ele era demais para nós.
Ele era popular, todos conheciam e conversavam com o Roger. Todos. Da faculdade inteira.
Roger era bonito e descolado, era alto, magro, sorriso cativante, andava de um jeito peculiar, todos os caras queriam ser como Roger. Usava óculos e parecia ainda mais culto. Era um geek musical. Era inteligente e antenado. Era O cara.
E por sua proximidade com Vinicius, devido a debates longuíssimos sobre neurolinguística que ambos tinham as vezes, ele começou a se aproximar de nós, os desajustados.
Não era surpresa nenhuma que João e Janaína estavam juntos ocasionalmente. Mas não era nada sério, era uma brincadeira.
Da mesma forma que o grupo todo incentivava que rolasse algo entre eu e Denis, sem nem sonharem que eu era completamente apaixonada pelo impronunciável. Foram saber quando não éramos mais um grupo.
Roger então, cativou Alice, depois cativou a mim como amiga  e me tornei sua confidente. Depois cativou João e acabou por cativar Janaína.
E se apaixonaram perdidamente, e João não gostou nada disso.
E foi o primeiro racha em nosso grupo.
Eu era louca e secretamente apaixonada por João, e era confidente de Roger e de João.
Um dia estava eu e ele a ensaiar umas musicas para um festival de bandas universitárias que João havia me chamado para participar, dentro de uma sala que tinha uma mesa de ping pong, na faculdade. E entrou Roger e Janaína, sem perceber, aos beijos. João saiu da sala furioso e Roger foi atrás se explicar, e tive que separar uma briga feia entre os dois.
Depois disso, tive que ficar me dividindo entre ouvir as lamurias de Roger e os xingamentos do impronunciável sobre Roger.
Até que um dia, conversando com Alice sobre esta merda toda, ela disse que consertaria a briga dos dois.
Eu não sei o que ela fez, mas um dia, ao entrar na faculdade e ir para o lugar onde sempre ficávamos: o jardim de inverno de uma luminária só, vi Roger e João abraçados, chorando, se jurando como irmãos.

Eu mal sabia que aquele era o começo do meu fim. 


***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***

segunda-feira, abril 11, 2016

O impronunciável

“Denis anda tão preocupado. Denis, todos cometem pecados.”

Eu nunca quis ser a Inês do Denis, mas acabei sendo.
E por um tempo foi bem divertido.
Numa noite éramos pichadores, e com alguns sprays desenhamos pênis voadores em todo o viaduto Jaceguai. Outro dia, éramos escaladores, e escalamos a estação de metrô do Brás. Sempre sorrindo, a mão de Denis estava sempre estendida para mim.
Ele era ridículo e não tinha vergonha nenhuma de ser. E eu embarquei na onda do ridículo com ele. Gostávamos daquilo, era uma liberdade gratuita que eu jamais experimentara. E então, Denis se apaixonou por mim, e eu me deixei levar por aquilo, curtindo cada risada do lado dele, descobrindo cada parte do corpo dele e interpretando qualquer porcaria que ele falava só para me fazer rir. Me deixei moldar pelo o que ele quisesse fazer de mim, e ele parecia até mais bonito quando a luz da aurora batia na minha janela iluminando parcialmente o quarto.

Ele sabia que ainda havia um animal semimorto habitando meus sentimentos, exalando o cheiro amargo da rejeição de outro. E isso acabava com ele.
Muitas eram as vezes que nos encontrávamos e eu não queria fazer mais nada, a não ser fumar e ouvir algumas músicas do Lulu Santos. E ele ficava me olhando, até que um dia ele perguntou qual era o nome do indivíduo que me deixou assim de coração tão partido. Olhando diretamente para os olhos dele, soletrei cada letra do nome do melhor amigo dele.

 Ele sabia de tudo, ele era da nossa panela de amigos, ele acompanhou minha história do coração partido inteira dos bastidores. E ele sabia que eu não podia gostar de ninguém porque amava o outro lá, o que me trocou pela Alice. O impronunciável. Que era o melhor amigo dele, e o responsável por ter nos unido numa brincadeira sem graça de terminar o namoro comigo e me colocar frente a frente com Denis.

Mas só muito tempo depois que eu entendi porque ele me perguntou.
Porque só saber não era o suficiente. Ele queria ouvir de mim se eu ainda amava o impronunciável. E quando eu soletrei o nome dele, era o que ele precisava saber. Eu amava de um jeito tão forte e intocado, que nem todo o amor do mundo vindo de Denis era suficiente para que eu ignorasse a existência disso.

Um dia de chuva, eu estava a esperar a chuva passar para sair da faculdade e ir a casa de Denis, pois ele estava gripado. E sorrateiramente, o impronunciável apareceu, com um aroma diferente do que eu conhecia.

 Eu meio dispersa, ele começou a puxar assunto. Perguntou de Denis, perguntei de Alice. E ele me informou que terminara o namoro com Alice.

 Eu ainda queria matar os dois, especialmente ele, mas naquele momento eu só queria o sorriso dele. E ele, inteiro, como quis por muito tempo.

 Então ele começou falar que se sentiu arrependido e que tinha sido um grande erro que ele me quisesse só como amiga.

Porque ele sentia falta de mim todos os dia, falou. E que vinha ensaiando me procurar há dois dias, desde que terminou o relacionamento com Alice. Eu chorando, saí andando na chuva, sem olhar para a cara dele porque, por deus, só eu sabia como estava sendo difícil me desfazer disso tudo. Foi difícil não pensar nele até pouco tempo atrás, quem me dera ser tão resistente naquela época.

Então ele me chamou pelo nome, e veio na chuva em minha direção, eu parei, ainda chorando, ele me abraçou forte e decidido e me beijou, com a camiseta verde encharcada.
“Nunca mais faça isso comigo, se fizer de novo eu acho que morro” falei usando todo meu potencial dramático. E ele pela primeira vez disse que me amava.

Então eu parti o coração de Denis no dia seguinte. E hoje ele está casado com uma esposa linda na Argentina, feliz aguardando o nascimento do primeiro filho.




“Dênis, o destino decidiu que você não tem escolha

Nem mais uma chance pra tentar tudo outra vez"


Graforréia Xilarmônica - Dênis





***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***

sexta-feira, abril 08, 2016

a troca

Claro que havia algo errado. Eu vi os dois sorrindo entre si de um jeito  bem estranho.
Estava eu sentada num banco do jardim que frequentávamos fumando e vendo os dois se aproximarem. Alice com um sorriso estranho de satisfação. Ele com o nariz um pouco mais arrebitado cortando os ventos e como se me desafiando a questionar porque ele estava tão feliz.

Toda vez que ele se aproximava, eu sentia aquele gosto de cerveja choca que lembrava o beijo delicioso que ele me dava. Mas já fazia algum tempo que não tinha mais esse beijo. Nem o sorriso com os dentes caninos levemente saltados, nem mais nada.

Alguns dias atrás ele me deixou na porta de casa dizendo que minha amizade para ele bastava. E eu, histérica, disse “e o meu amor por você, como que fica?”. Estava eu completamente, terrivelmente apaixonada e não sabia o que fazer com aquele sentimento todo rompendo-me ao meio.

Agora, vinha ele com aqueles olhares estranhos com Alice. Eu preferia a morte.
Mentira, não preferia, porque assim nem ao menos o teria de longe.

Entrei num estado de torpor quando ouvi “sábado eu e Alice vamos no cinema” dos lábios dele, horas depois de perceber esses olhares estranhos no nosso jardim.
Eu queria gritar “mas como assim vão ao cinema? Até alguns dias atrás era meu corpo que você passeava as mãos e foi assim nos últimos anos” mas tudo o que consegui era responder “legal, se divirtam por mim”.
E ele continuou me contando seus planos e revelou o mais maquiavélico de todos “você devia ir também com a gente e chamar o Denis”. Então era isso. Além de não me querer mais, ainda queria me empurrar para o amigo de piadas sem graças dele. E eu, que estava possessa e só queria ir pra casa chorar, mas não conseguia nunca falar não para ele, respondi “vou sim, vou chama-lo”.
Até o dia do cinema, eu era a pessoa mais fria do mundo com ele e com qualquer um da nossa panela de amigos. Eu era só dor e destruição, meu sarcasmo transbordava e eu não podia me controlar. Fumando um cigarro atrás do outro, mantendo todos os compromissos mauhumorosamente marcados com ele, seguia eu um poço de soberba e amargura. Porque ele não me queria, porque queria Alice.
Porque ele não era mais meu.
Numa partida de Uno mal jogada, eu perdi. E como pena por ter perdido, todos me desafiaram convidar o Denis para o cinema.
É que era humilhante sair com Denis. Porque Denis era o cara que todos da faculdade zoavam porque nunca namorava ninguém. Porque Denis tinha quilos de espinha na face e parecia ainda ter 16 anos, enquanto todos os outros caras da faculdade já tinham um porte mais másculo mesmo tendo mesma idade do Denis.
Mas chamei para o cinema.
E fui.
E foi como se eu aceitasse que eu e ele havíamos acabado, e que ele e Alice juntos estava tudo bem pra mim. Mas nunca esteve, eu queria matar todos naquele cinema.






***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***

quarta-feira, março 09, 2016

hoje

Hoje eu acordei com aquele hit "hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua..." e eu realmente precisava. Mas eu não queria ouvir qualquer palavra e muito menos se fosse dito com aquele tom frio e formal dos bom dias de elevador, que é só o que você vem me oferecendo nos últimos anos.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

A hora do recreio

Eu era estranha, estranha demais pra querer fazer amizade com alguém. Não sabia lidar com aquela liberdade das faculdades, "saia quando quiser, assista a aula que quiser, o mérito e o prejuízo será todo seu".

Estava sentada num banco no jardim de inverno da faculdade porque me recusava a ver aula de Estatística. Estatística pra quem? Aquilo fazia minha cabeça rodar, e todos os outros vinham puxar assunto sobre a matéria com a fórmula dos cálculos na ponta da língua, me fazendo ficar enjoada.
Então resolvi sair e fumar, a próxima aula talvez fosse menos ruim, e eu não precisava dar satisfações a ninguém sobre assistir ou não uma aula.
Abri a bolsa e deixei aberta, estava cheia de bombons, outra coisa que não sei lidar. Estava meio escuro e lá só havia uma luz, um amplo espaço cheio de arvores e bancos, com um apenas uma luminária. Eu gostava daquilo.

Então ele veio, com uma camiseta verde horrorosa e um all star preto surradíssimo. Pediu isqueiro, aí deu uma disfarçada e pediu cigarro. Sabia que ele não tinha cigarro. Educadamente agradeceu quando o dei e sentou-se num banco próximo. De repente perguntou o que eu estava achando da faculdade. Tínhamos começado as aulas a 2 semanas e eu ainda não falava com ninguém. Respondi que estava meio frustrada, mas que tinha fé que melhoraria. Não dá pra fazer uma avaliação de verdade com duas semanas de aula.
Ele concordou. E me sorriu. E quando vi aquela linha branca, reta, perfeita, com os caninos levemente saltados que eram os seus dentes, eu sabia que era aquilo que gostaria de ver para o resto da minha vida. Ficamos conversando sobre possibilidades de estágio e amenidades da faculdade e fumando um cigarro mentolado atrás do outro.
Eu tinha o hábito de apagar as bitucas na parte de cima do encosto dos bancos, fazendo marcas retilíneas uma em seguida da outra. Logo ele estava fazendo isso também e havia 20 marcas dessa no banco. Acabamos falando sobre nossas vidas, tínhamos recém saído da adolescência, mas agíamos como se tivéssemos 16 anos, comendo bombons sem parar. Falou sobre seu falecido pai, falou sobre fazer intercambio na Irlanda, falou sobre seu time do coração e eu torci um pouco o nariz, era o que justificava a camiseta verde horrorosa. Falou sobre Janaína, uma aluna do ultimo ano que ele conheceu no trote e que estavam ficando. Falou surpreso "Ela calça 32! É um elfo!" e rimos. Só depois é que eu entenderia tudo isso.

Fomos comprar mais cigarros, entrei no bar e o deixei esperando na porta. Fui cutucada por um rapaz bêbado que dizia que tinha levado um fora meu e eu nem lembrava. Fiquei com medo, o rapaz começou a incomodar e eu olhava pra fora pra ver quem me esperava tentando fazer algum sinal que ele entendesse que eu estava com problemas, dentro de um bar cheio de homens bebados, com um bêbado me aporrinhando. Quase chorei de raiva. até que ele entrou, com toda aquela imponência, másculo, e tão menino, com as bochechas rosadas, e se dirigiu ao bêbado "algum problema amigo?", o bêbado respondeu que não e saiu, como um cachorro sai quando o molhamos com a mangueira.

Rimos muito disso depois, fumamos muitos cigarros ainda, e eu de vestido branco em pleno outono, morrendo de frio até ir embora com um moletom verde que ele me emprestou, impregnado com seu cheiro que eu, algum tempo depois, me entorpecia.




***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***

terça-feira, novembro 24, 2015

...pois que seja fraqueza, então.




Calçadas ao por do sol. Amendocrem. Cigarros mentolados. Cerveja choca. Sorvete de morango. Maria-mole. Lulu Santos. Galeria do Rock. Pebolim. Hospital. Moletons com capuz. Vans. Suco de morango com leite.

Por muito tempo, eu evitei essas coisas aí que me lembravam demais ele. Por muito tempo, eu não conseguia ver alguém mais ou menos parecido com ele na rua que ficava trêmula, suando, coração acelerado. Por muito tempo eu não entendi nada, só entendi que não tinha volta. E isso era como se fosse um abismo dentro da planície de ser eu. Como se houvesse um pedaço dos meus pensamentos que não poderia nunca ser acessado, pois seria um caminho sem volta. Era assim, eu lembrava dele em flashes todo dia. Mesmo sem querer, mesmo dormindo num trem qualquer voltado de algum bar mais bebada do que é possível explicar.

O rompimento foi extremamente violento pra mim, uma explosão contra tudo o que eu acreditava. Fui morrendo, deixando de gostar de qualquer coisa, me afundando em evitar as coisas que me lembravam ele.
Foram períodos sombrios, como quando você está em um ambiente que não é exatamente escuro e você consegue ver algumas coisas através de sombras e só se prestar extrema atenção. E prestar extrema atenção cansava tanto...
O fundo do poço foi quando notei que todas as coisas que eu gostava antes de conhecê-lo deixaram de fazer sentido, pareciam vazias e artificiais, forçadas. Mas porra! Aquilo era eu! Aquilo era parte de mim!

Então as coisas que eu evitava, parei de evitar. Ouvia Lulu Santos todo dia. E de repente me vi gostando de suco e sorvete de morango. Era como me deliciar de um pedaço dele contra sua vontade. Como de uma certa forma, te-lo de novo comigo. E então eu quase ouvi o som do riso dele, como sininhos, que quando ria me deixava até vermelha, o dia que fumei um cigarro mentolado vendo o por do sol tomando uma cerveja choca e usando moletom de capuz. Eu me livrei de tudo o que me prendia! As coisas que me lembravam ele estariam me rodeando o resto da vida, e eu não podia parar de viver e morrer de tristeza por lembrar sempre que ele continuava existindo com o sorriso maravilhoso e as camisetas verdes sem ter eu por perto. Eu adotei a tristeza que aqueles itens me trazia, e me fortaleci com eles, me deleitando com a perda a cada elemento.


E quando já não precisava mais, estava eu saindo do prédio onde trabalhava e vejo ele. Ele. Não alguém parecido com ele, não um rapaz de camiseta verde. Era ele, pessoalmente, ao celular, sorrindo e conversando. Minhas pernas amoleceram, eu voltei para o prédio. Lembrei de tudo, todas as vezes que dormi cheirando a camiseta da Irlanda que ele esqueceu em casa. A tristeza que cada elemento me trazia. E lembrei o mais importante: eu tinha voltado para mim. Se era feita de tristeza, era outra história. Saber que ele estava lá fora, sorrindo o meu sorriso para alguém, nem me interessava. O meu "ele" não existia mais. Morreu junto com o nosso "nós".


Então eu saí. Ele ficou olhando e eu segui. 
E continuo seguindo.














***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***



terça-feira, junho 09, 2015

O cara do sorriso branco e reto

Ele ria como um tilintar de ferros, e eu tremia como uma foto 3x4 mal tirada, nervoso, gim, brilho, luzes vermelhas. Somos o que há de melhor. 

Sempre prezei pelas minhas lembranças, as vezes até mesmo em detrimento das minhas experiências. Entende? A minha preocupação com o que lembrar quando for velha é superior a vontade de fazer com que as experiências sejam duradouras. 

E então ele veio, entrou no bar, sentou do meu lado. Percebi que o cabelo dele agora tinha uma mecha longa que se destacava de toda a cabeça de cabelos curtos, que coisa odiosa. A infanta barba tentava despontar, mediocremente. Vestia um moletom de capuz, uma calça jeans escura e um desses tênis horrorosos cheios de molas no solado. Só que, ninguém nunca vai entender que não importa como ele estivesse vestido. Desde que eu pudesse dar uma olhada naquele sorriso reto, branco, brilhante e convidativo. Cara! Eu nunca gostei de nada na vida da forma como gostava de olhá-lo sorrindo. Eu gostava de olhá-lo até sem face, gostava de olhá-lo até se ele não olhasse para mim. Até se soubesse que era tudo artificial. 

Mas eu estava ali. De toda uma multidão de pessoas no mundo, de todas as pessoas que já tinham conhecido ele, de todas as mulheres que já se interessaram por ele, de todas as pessoas naquela sala de faculdade, era eu quem estava ali. Não podia ser coincidência. 

Já ali, eu era capaz de lembrar de todas as vezes em que conversamos. Todas as palavras que ele já falou comigo. Sobre meu relógio roxo, sobre minha bolsa pesada, sobre meu All Star de velcro, sobre cigarros, sobre mulheres, sobre os pés das mulheres, sobre homens, sobre barbas. 

Eu tenho as melhores lembranças, até os momentos de briga e discussões que me faziam acha-lo um idiota, contam nestas lembranças. Até os últimos momentos antes do último momento. 

Ele pediu um cigarro, eu, que sempre fingia que não estava me importando com ninguém, coloquei sobre a mesa cigarro e isqueiro. Nenhuma palavra, eu me sentindo extasiada, ele comentou que eu estava bonita. Me ajeitei no banco do bar, entrelacei os dedos e esperei. 
Fui invadida, a sensação era como se tivessem tirado meu cérebro do lugar, dado uma chacoalhada e colocado no lugar. Todas as coisas e placas passavam como borrões numa tele transferência. Só tinha sobrado ele ali na minha frente, me beijando. 
Ele me faz correr e perder todas as coisas como um barco perde o rumo sem poder manter controle dos elementos que o fazem funcionar. As vezes eu me sentia um fantoche e era um prazer ser manipulada por ele. 
Bob Marley começou a tocar, estragando meu momento. 

Era o início de uma parte da minha vida, a melhor de todas. 



***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***

quarta-feira, janeiro 16, 2013

não-abraço

Eu fui criada numa família predominantemente masculina, e as figuras femininas que eu tenho como referência são apenas minha avó e minha mãe. Não estou inventando uma desculpa pra minha falta de tato e rudeza com as coisas. Mas era muito mais fácil aceitar a zoação a sair chorando quando se convive a infância inteira em campinhos desgramados correndo atrás de pipas ou bolas com um bando de moleques.
Então, de tanto conviver com meninos, eu fiquei muito parecida com eles. Não fisicamente. Mas psicologicamente, eu sou idêntica. Meu vocabulário é diferente das mulheres da minha idade, bem como uma série de pontos de vista.
Aí eu me lembrei hoje de um momento que aconteceu quando eu ainda o tinha comigo. Ele me ofereceu um abraço, estendeu seus braços de uma forma engraçada, eu tinha chorado minutos antes. Eu me lembro da sua expressão, preocupado comigo como eu nunca mais vou tornar a ver. Eu sorri de um jeito sarcástico e lhe dei um soco no braço, chamei ele carinhosamente de filho da puta. Não nos abraçamos. E hoje eu vou dormir todo dia pensando na porra do abraço que eu perdi.


***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***

terça-feira, janeiro 01, 2013

Janeiro

Palavras são erros, erros nossos. 
Eu nunca vou me esquecer daquele dia que percebi você pela primeira vez. Eu olhei pra você sorrindo com uma fileira de dentes muito alvos e perfeitos, eu queria tanto que aquele sorriso fosse pra mim. Suas bochechas cobertas de espinhas, suas mãos finas e grandes. Eu te amo tanto, que as vezes chego a pensar se amor não seria apenas dor. 
Eu te amo ao ponto de achar que o amor não existe. Não é possível existir amor! Eu sofro todo dia, a cada pensamento sobre você que eu tenho. Quando estou num lugar que não sei se você já foi, quando faço alguma coisa nova que imagino que você nunca fez. Eu te avisei que seria assim pra sempre. 
Vamos nos casar, vamos sim. Você com ela aí, vai ter filhos com ela, vai ser muito feliz. E eu também. 
Nossa vida vai passar como um solo de guitarra, gostoso de ouvir, forte. 
Eu vou lembrar de você nos sons, como o arranhar de um isqueiro. Vou te lembrar nos aromas, cigarro mentolado, cerveja choca, jurupinga. Vou lembrar nos lugares, meus olhos vão marejar. Vou lembrar todas as vezes que sentir frio. Eu me lembro todos os dias. 
Vou comparar todos os caras com você. Por muitos anos eu vou ver supostos 'você' na rua, minhas pernas vão tremer, eu vou amolecer, e quando o desconhecido se virar, não será você. E eu vou me imaginar gritando a plenos pulmões a nossa música. Chorando. Correndo. Te dando um soco na cara. 
Eu vou aprender, é claro. Ninguém é tão persistente assim. Mas vamos nos ver velhos. Muito velhos. Talvez num hospital, perto de ir embora, talvez num cemitério, talvez numa feira, ou na rua. Aí você vai sentir tudo o que eu senti. Vai entender tudo o que eu passei, quantas vezes me enfrentei por sua causa. E então não precisaremos nunca mais nos encontrar. Amar você já foi suficiente. 



***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***

sábado, dezembro 08, 2012

O rompimento

E então eu voltei a sentir aquela dor. 

E a culpa toda era da Irlanda! 
Janaina tinha ido a Irlanda ao mesmo tempo que ele. Ao mesmo tempo que não nos falávamos mais. 
O fato é que todos nós acabamos indo para um canto do mundo dentro de um ano após o rompimento. 
Vinicius foi a Bangladesh, estava gordo e de cabelos curtos. Ele também não falava mais comigo. 
Denis tinha ido para a Argentina e por lá ficou. Finalmente achou quem o amasse. Eu nunca tive competência nem para isso, e ele tem razão em me achar uma idiota. 
Alice voltara pouco tempo do Canadá. Eu, particularmente sempre detestei o Canadá. Gente fria, lugar frio. 
Alice estava bem diferente. Como todos nós estávamos, é claro. Mas a mudança dela, embora carregada de traços antigos, era a mais notável. 
Fumava. Era loira agora, preocupada com a aparência, com homens e com roupas de grife. O exterior engoliu minha amiga de outrora. 
Alice estava mais próxima do ser atual que ele se tornara do que eu jamais estarei. 

Sempre permaneci longe, e a distância foi aumentando. Até sendo a melhor deles todos, até sendo a mais próximas de todas as pessoas do mundo, eu ainda era a mais distante. Porque quanto mais eu queria me aproximar dele, mais distantes do que o que eu queria eu ficava. 

Ele tinha ido para a Irlanda no mesmo período que Janaina. Então, me senti na obrigação de estabelecer o meu bem estar novamente perguntando a Janaina se eles tinham se encontrado lá. Não fez diferença alguma saber que sim ou não. Ele era obcecado pelos pés dela, e já tinha me falado várias vezes. 

Tive devaneios por meses sobre ele beijar os pés dela num chalé na Irlanda, com aquelas cordilheiras frias cercando o lindo casal que eu jamais saberia. 

Por fim, eu tinha ido para o México. Alice me parabenizou pela escolha, a Alice de antes realmente gostaria de ir a uma periferia ao invés de um lugar desenvolvido. Mas esta nova Alice só se importava em saber quanto eram os preços do Carolina Herrera por lá. 
Eu tive uma viagem fora de série. Muita bebida, tradições, ervas, comidas exóticas, falhas na minha saúde quase inabalável. Sempre digo que as coisas se dividem entre antes e depois do México. 

Mas enquanto eu bebia até rodar na Baja Califórnia, ele continuava rindo com aqueles dentes que eu amava e com o som de sininhos que tocava no pé do ouvido. Aquele tamanho todo, preso dentro de camisetas verdes que ele colecionava. 

Eu ainda sentia falta de quem ele era. 




***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***