quarta-feira, fevereiro 24, 2016

“coisas-que-você-precisa-saber” sobre o Metrô

Primeiramente, o post a seguir não tratará apenas do metrô, mas também do trem, Mafersa, Alstom, CPTM, ViaQuatro, Fepasa ou qualquer outro sinônimo que você conheça da “minhoca de metal que corta as ruas”.

É o seguinte: sabe aquilo que faz parte da sua rotina, que acaba com você, te cansa, você detesta e se pudesse nunca mais veria de novo, mas mesmo assim, sabe que isso é impossível porque tudo o que é bom é relacionado a isso e no fim você não tem nenhuma chance de eliminá-lo? O metrô é assim, principalmente em São Paulo. Se tornou a cara da cidade, já que você consegue ir para qualquer canto apenas com uma passagem de 3,00 reais. Só que tem coisas que você precisa saber.

· Fuja para as colinas se por acaso tiver que entrar numa estação de metrô próximo a alguma instituição de ensino superior. É aterrador se sentir em um enlatado com um bando de estudantes cheios de livros e uniforme do curso de Educação Física encharcado de suor. Fuja, é sério.

· Horário de pico é balela para algumas estações. Sé, Barra Funda, Luz, Brás e principalmente Pinheiros, não existe essa história de horário de pico. Todo horário é de pico para estas estações. É comum ouvir algumas recomendações de gente mais velha antes de começar a enfrentar os trens e metrôs, como a famosa “evite a Sé as 6 da tarde”, no caso, o correto seria adaptar para “evite a Sé”, somente.

· Quanto mais antiga a linha, mais tempo no trem. Existem linhas pré-históricas por aí. Em São Paulo, as linhas 7, 8 e 9 da CPTM surgiram em tempos muito remotos e mesmo com os novos trens (aqueles trens sem divisões, que liga um vagão ao outro com sanfonas), não conseguem resolver este problema da lentidão devido ao desgaste da linha. Na verdade, a linha 7 é um caso perdido em São Paulo. É, sem sombra de dúvidas, a pior linha de toda a malha ferroviária, e talvez por isso os trens mais antigos circule nela, ou o contrário. A linha 7 também é a única linha cuja a voz que anuncia as estações não foi padronizada. Há cerca de 5 anos, todos os trens e metrôs passaram por uma padronização cuja a voz que anuncia as estações é senão a mesma, muito parecida com a voz da mulher do Avast. EXCEPTO a linha 7, Rubi da CPTM que continua com a voz de vendedor de churros em todas as estações, chamando a atenção vezes ou outra de quem segura a porta ou quem senta no meio do vagão.

· Primeiros trens do dia são lendários. Isso vale para território nacional, isso é regra básica de convivência no trem ou metrô. Se você entrar no primeiro metrô do dia, você verá gente vomitada, bebâda, chapada, cambaleando, ensanguentada, sem sapatos, com roupas rasgadas, tatuagem nos olhos, portando armas de fogo, quase nú, pedindo dinheiro, encharcado de cerveja, todo e qualquer tipo de gente insana voltando da noite. Em São Paulo, a maior parte é facilmente encontrada na Linha Amarela, que vem da Av. Paulista. Observe sempre ao sentar num banco, ele pode estar vomitado.

· Mendigos! Toda estação, repito, TODA ESTAÇÃO, tem mendigos. Seja Sumaré ou Praia Pequena, sempre haverá mendigos querendo te filar.

· Comércio de muambas em geral é a coisa mais legal do mundo dentro de um metrô ou trem, sendo mais fácil encontrar nos trens. Você pode comprar qualquer coisa no metrô, canetas, chaveiros, amendoins, calcinha, sutiã, bloco mágico, bonecas, cópias de dvds não autorizadas (todos os gêneros), dentaduras, roupas, bolsas, juízo, comida congelada, fogão, computador, torradeira, ferro de passar, camisinha, sapatos. E tudo por preço de banana. Só que nem é preciso falar que isso só acontece em trens vazios, ou seja, o comércio de muambas anda meio em falta em algumas linhas.

· Tenha educação. Isso é realmente difícil para quem embarca na linha vermelha do metrô sentido Corinthians – Itaquera, mas faça o maior esforço possível para não encoxar alguém, tire a mochila das costas, não espirre ou tussa na cabeça de alguém, use desodorante, evite falar alto, não ouça músicas sem seu fone de ouvido, não fique com as axilas na cabeça de ninguém ou o pênis no ombro de alguém.



O metrô agradece e lhe deseja uma ótima viagem.

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Sísifo do séc. XXI

Diariamente, eu me sinto como Sísifo. Condenado a repetir o mesmo ato todos os dias, e vendo a inutilidade daquele ato, que a mim não diz nada. Quantos de nós nos vemos presos a rotinas inúteis, escravos de nossas funções administrativas para resolver problemas que nós, humanos, criamos? E não venha com aquele papo de revista de que o problema é individual, de que eu não achei o que eu gosto de fazer ainda, isso é balela. O problema não é só o operacional, o problema é: que sentido isso tudo tem para você?

Você que é analista de sistemas, você que é gerente de um banco, você que é assistente qualquer coisa, você que é despachante, você médico que “salva vidas” dentro de um hospital cheio de burocracia para atender (maioria dos casos), você acha que seu trabalho faz diferença para as pessoas, de fato? Ou você só resolve burocracias inúteis? Ficamos refém de sistemas, protocolos, que a cada clique, diminui nossa vida e nossa paciência. Eu não costumo acreditar em teoria da conspiração, mas se alguém me falasse que toda essa burocracia e esses cargos ridículos que ocupamos são justamente para preencher nossa mente com um monte de (des)informação e não perturbar o andamento do sistema, eu acreditaria e ponto. E enfim, chegamos ao sistema. Este sistema sacana! Te faz crer que é importante, que o que você faz não é uma merda, porque o dinheiro que você ganha compra seu carro, aquela roupa, aquela viagem. Coisas que você precisa por causa do próprio sistema! Assim como o dinheiro, já te passou pela cabeça alguma vez não precisar do dinheiro, viver sem ter que consumir, no sentido mais atual da palavra? Se você respondeu não, eu não te culpo, porque é assim que somos doutrinados a pensar, toda hora bombardeados pela TV e propagandas, que para suprir a insatisfação de ter um trabalho de merda, tecnicista e burocrático, você precisa ter coisas que deseja e que o auto afirme como bem sucedido. Eu não precisaria de um carro para ir à praia se ir à praia de ônibus não fosse uma droga! Eu não preciso do sistema e não quero fazer parte deste ciclo. Mas o próprio sistema se incumbe de nos mostrar (ou não) o que acontece com aquele que não quer fazer parte do ciclo trabalhar-consumir-trabalhar, e você passa por essa pessoa liberta, sem dogmas e sem a pressão da sociedade todos os dias, e o ignora, como manda o protocolo social: os mendigos. Pela lógica capitalista, eles não deram certo e servem muito bem de exemplo para quem não quer se doutrinar. São os Sísifos que não conseguiram enganar Perséfone. São os Sísifos que se arrependem todo dia, porque não há um só morador de rua que não queira ter nossa vida sistemática. E aí, no meio de toda essa inutilidade em que somos engolfados diariamente, somos ludibriados com a ideia de felicidade. O que é essa tal de felicidade que nos vendem, afinal? Assim como o amor, ela é subjetiva, individual e única. Não tem essa de felicidade de propaganda de margarina, quem garante que serei feliz naquele modelo marido-esposa-filhos? Somente cada indivíduo sabe sobre sua própria felicidade, mas a verdade que talvez todos os seres humanos sentem em seu coração e alguns são resistentes em assumir, é que a felicidade nunca é plena, ela é efêmera e fugaz, como Sísifo sentia no espaço de tempo entre deixar a peça de mármore no alto do cume e logo depois vê-la rolar para baixo.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Serendipity

Eu fico pensando nessa vida descolada que você leva e que em nenhum momento eu vejo você deixar a bola cair. Acho isso tão forte, me identifico de uma forma que não sei explicar. E quanto mais penso, mais vontade de saber a respeito enche minha cabeça de ideias, e eu viajo nas histórias que crio inspiradas em você. Imagino você vivendo em todas as instâncias possíveis, mas sempre com a mesma cara, trejeitos, sorrisos e ah como eu adoro imaginar isso. O melhor que você me proporciona é isso, me deixar criar histórias com você sendo protagonista delas todas. E sua idade também age como um fator propulsor da minha vontade de criar histórias, porque eu fico pensando que alguém com essa idade pode já ter feito de tudo e ainda continuar jovem como é. Você sabe, o tempo passa para todos, mas só envelhece quem quer.  
Se você fosse um jornalista, eu garanto que teria as melhores reportagens, porque a forma como você descreve o que quer que seja é impossível de não se atentar, e ainda melhora se o alvo da descrição for algo da qual você goste. 
Se você fosse um professor de Ed. Fisica, fumante como é, seria o mais debochado de todos, e se fosse um professor de literatura, eu iria querer que suas aulas nunca acabassem porque provavelmente eu ficaria descendo a corredeira macia que é a sua voz até que cessassem os movimentos deste rio. 
Se você fosse um porteiro, seria sempre gentil, daqueles que nunca aborrecem e que não se cansa de saber como está. 
Se fosse um chefe, seria daqueles que faço questão de trabalhar, e daríamos risada um para o outro até diante do mais denso problema a ser resolvido. 
E mesmo não sendo nada disso, e sendo apenas você mesmo, profundo e interessante como o oceano índico, eu não gostaria que fosse mais ninguém.

A hora do recreio

Eu era estranha, estranha demais pra querer fazer amizade com alguém. Não sabia lidar com aquela liberdade das faculdades, "saia quando quiser, assista a aula que quiser, o mérito e o prejuízo será todo seu".

Estava sentada num banco no jardim de inverno da faculdade porque me recusava a ver aula de Estatística. Estatística pra quem? Aquilo fazia minha cabeça rodar, e todos os outros vinham puxar assunto sobre a matéria com a fórmula dos cálculos na ponta da língua, me fazendo ficar enjoada.
Então resolvi sair e fumar, a próxima aula talvez fosse menos ruim, e eu não precisava dar satisfações a ninguém sobre assistir ou não uma aula.
Abri a bolsa e deixei aberta, estava cheia de bombons, outra coisa que não sei lidar. Estava meio escuro e lá só havia uma luz, um amplo espaço cheio de arvores e bancos, com um apenas uma luminária. Eu gostava daquilo.

Então ele veio, com uma camiseta verde horrorosa e um all star preto surradíssimo. Pediu isqueiro, aí deu uma disfarçada e pediu cigarro. Sabia que ele não tinha cigarro. Educadamente agradeceu quando o dei e sentou-se num banco próximo. De repente perguntou o que eu estava achando da faculdade. Tínhamos começado as aulas a 2 semanas e eu ainda não falava com ninguém. Respondi que estava meio frustrada, mas que tinha fé que melhoraria. Não dá pra fazer uma avaliação de verdade com duas semanas de aula.
Ele concordou. E me sorriu. E quando vi aquela linha branca, reta, perfeita, com os caninos levemente saltados que eram os seus dentes, eu sabia que era aquilo que gostaria de ver para o resto da minha vida. Ficamos conversando sobre possibilidades de estágio e amenidades da faculdade e fumando um cigarro mentolado atrás do outro.
Eu tinha o hábito de apagar as bitucas na parte de cima do encosto dos bancos, fazendo marcas retilíneas uma em seguida da outra. Logo ele estava fazendo isso também e havia 20 marcas dessa no banco. Acabamos falando sobre nossas vidas, tínhamos recém saído da adolescência, mas agíamos como se tivéssemos 16 anos, comendo bombons sem parar. Falou sobre seu falecido pai, falou sobre fazer intercambio na Irlanda, falou sobre seu time do coração e eu torci um pouco o nariz, era o que justificava a camiseta verde horrorosa. Falou sobre Janaína, uma aluna do ultimo ano que ele conheceu no trote e que estavam ficando. Falou surpreso "Ela calça 32! É um elfo!" e rimos. Só depois é que eu entenderia tudo isso.

Fomos comprar mais cigarros, entrei no bar e o deixei esperando na porta. Fui cutucada por um rapaz bêbado que dizia que tinha levado um fora meu e eu nem lembrava. Fiquei com medo, o rapaz começou a incomodar e eu olhava pra fora pra ver quem me esperava tentando fazer algum sinal que ele entendesse que eu estava com problemas, dentro de um bar cheio de homens bebados, com um bêbado me aporrinhando. Quase chorei de raiva. até que ele entrou, com toda aquela imponência, másculo, e tão menino, com as bochechas rosadas, e se dirigiu ao bêbado "algum problema amigo?", o bêbado respondeu que não e saiu, como um cachorro sai quando o molhamos com a mangueira.

Rimos muito disso depois, fumamos muitos cigarros ainda, e eu de vestido branco em pleno outono, morrendo de frio até ir embora com um moletom verde que ele me emprestou, impregnado com seu cheiro que eu, algum tempo depois, me entorpecia.




***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Quando se desperta pelas causas que valem a pena

Quando se tem uma fixação por alguém que não tem nada a ver com atracão sexual... Foi assim que a conheci, na empresa de moda que trabalhávamos. 
Estávamos no antro daqueles a quem temos que combater, e no começo, antes de conhece-la, eu fingia ser um deles. Eu ria das piadas sem graças, e comentava sobre as notícias do jornal no café da manha. Não é difícil parecer ser uma imbecil. 
E entao, eu comecei a me liberar aos poucos dentro da empresa. Ouvia meus raps cabulosos durante o almoço, vestia estampas africanas que nada tinham a ver com a moda de lá. Comentava notícias de portais totalmente opostos e esquerdistas. Naturalmente, fui mostrando quem era. 
Sempre via ela pra lá e pra cá na empresa, recolhendo impressões e colocando os sapatos do estoque, cabeça baixa, nunca sorria, e o rastro de comentários horríveis que os colaboradores acéfalos viviam fazendo sobre ela. 
Ela era Giovana, uma negra de dois metros de altura, uns 70 cm de circunferência em cada coxa, magra e enorme, chamava a atenção. Tinha um bigode feminino juvenil e inocente. Grandes sobrancelhas e cabelos tipo lã grossa e negra, curtos. 
Num ninho de cobras brancas, eu e ela éramos as únicas negras. Em meio aquele mar de hipocrisia, onde o racismo existe e nos oprime o tempo todo, eu devia fingir que aquilo tudo era normal. Uma moça, jovem aprendiz de 15 anos era comentário no café da manha de gente que pensa que pensa. Porque era negra. Porque tinha bigode. Porque aparentemente era financeiramente desfavorecida (e muito provavelmente o cargo de Jovem Aprendiz só reforçava isso). Porque não seguia o padrão loira-magra-salto-cabelo-longo que todas ali tentavam se enquadrar. 




terça-feira, dezembro 01, 2015

Política para quem precisa, política para quem precisa de política!

Dentro do trem, metrô, ônibus, redes sociais, etc, é comum ouvir o comentário de que “gente que discute política” é chato e política no geral é chato. Mas por que é? Porque exige conhecimento que sabemos que não se adquire lendo meia hora de noticias. Exige de nós conhecimento em história, sociologia, e todas as disciplinas enfadonhas que tivemos a vida toda no ensino básico.
E aí você se depara com a grande falha que foi o seu ensino fundamental e médio, principalmente se foi público. Porque você chega na escola e tem professores que nos fazem engolir guela abaixo um conteúdo programático antiquado, que nada tem a ver com o que realmente achamos e vivemos. E a culpa nem é do professor, geralmente.
E devido a anos de falta de interesse nestas disciplinas de ciências humanas, é acumulado também anos de justificada ignorância sobre o que se passa ao seu redor. Você passa a ignorar os noticiários econômicos porque eles não dizem nada inteligível a você. E sua auto estima vai por agua abaixo, “como assim eu não sei o que é taxa Selic?” . E pra que tentar entender como funciona o congresso, se tudo o que te mandaram aprender era sobre como funcionava o sistema feudal de um período em que as pessoas mal tomavam banhos? Como podem exigir de você um conhecimento que você nunca teve acesso?

Porque tem uma coisa que a gente só percebe depois do ensino básico: conhecimento nunca é efêmero. Conhecimento é uma construção. Dia após dia, lendo e relendo, rabiscando, decorando e esquecendo e decorando de novo. E relembrando várias vezes depois. E marcando ele nas nossas vidas.

E é só construindo o conhecimento que você se interessa pelo o que acontece ao seu redor, pois o olhar crítico com bom embasamento estará presente nas análises diárias. E é isso que diariamente se ouve sobre “gente que discute política”, que nada mais é do aquele seu colega que resolveu parar de reproduzir baboseiras e correu atrás do prejuízo do ensino básico aprendendo história, sociologia, filosofia, geografia, economia e etc.

Ainda nos falta muito para acabar com o atraso que o ensino de má qualidade nos proporcionou, mas é com força de vontade e bom aproveitamento das ferramentas será possível vencer o atraso. 

sexta-feira, novembro 27, 2015

Chega de veneno

Eu estou sentada em algum canto da minha mente me perguntando o que tem de errado comigo. Fumando meu cigarro como sempre, e tentando identificar que coisa há de errado. 


Me disseram para ser magra, eu fui lá e emagreci.
Me falaram para estudar, eu estou estudando.
Me falaram para ser politizada, preocupada com o meio ambiente e com as próximas gerações. Eis me aqui, sendo tudo isso.
Aí então, não satisfeitos, disseram que eu tinha que ser bem vestida, sorrir sempre e ser delicada.
Eu cortei os palavrões do meu vocabulário, comprei as roupas mais caras, fiquei loira e aprendi a sorrir e falar delicadamente e baixo.

Aqui estou, esgotada de tudo o que os homens me mandaram fazer. Aqui estou usada, manipulada, transformada e cansada. Exausta. 

terça-feira, novembro 24, 2015

...pois que seja fraqueza, então.




Calçadas ao por do sol. Amendocrem. Cigarros mentolados. Cerveja choca. Sorvete de morango. Maria-mole. Lulu Santos. Galeria do Rock. Pebolim. Hospital. Moletons com capuz. Vans. Suco de morango com leite.

Por muito tempo, eu evitei essas coisas aí que me lembravam demais ele. Por muito tempo, eu não conseguia ver alguém mais ou menos parecido com ele na rua que ficava trêmula, suando, coração acelerado. Por muito tempo eu não entendi nada, só entendi que não tinha volta. E isso era como se fosse um abismo dentro da planície de ser eu. Como se houvesse um pedaço dos meus pensamentos que não poderia nunca ser acessado, pois seria um caminho sem volta. Era assim, eu lembrava dele em flashes todo dia. Mesmo sem querer, mesmo dormindo num trem qualquer voltado de algum bar mais bebada do que é possível explicar.

O rompimento foi extremamente violento pra mim, uma explosão contra tudo o que eu acreditava. Fui morrendo, deixando de gostar de qualquer coisa, me afundando em evitar as coisas que me lembravam ele.
Foram períodos sombrios, como quando você está em um ambiente que não é exatamente escuro e você consegue ver algumas coisas através de sombras e só se prestar extrema atenção. E prestar extrema atenção cansava tanto...
O fundo do poço foi quando notei que todas as coisas que eu gostava antes de conhecê-lo deixaram de fazer sentido, pareciam vazias e artificiais, forçadas. Mas porra! Aquilo era eu! Aquilo era parte de mim!

Então as coisas que eu evitava, parei de evitar. Ouvia Lulu Santos todo dia. E de repente me vi gostando de suco e sorvete de morango. Era como me deliciar de um pedaço dele contra sua vontade. Como de uma certa forma, te-lo de novo comigo. E então eu quase ouvi o som do riso dele, como sininhos, que quando ria me deixava até vermelha, o dia que fumei um cigarro mentolado vendo o por do sol tomando uma cerveja choca e usando moletom de capuz. Eu me livrei de tudo o que me prendia! As coisas que me lembravam ele estariam me rodeando o resto da vida, e eu não podia parar de viver e morrer de tristeza por lembrar sempre que ele continuava existindo com o sorriso maravilhoso e as camisetas verdes sem ter eu por perto. Eu adotei a tristeza que aqueles itens me trazia, e me fortaleci com eles, me deleitando com a perda a cada elemento.


E quando já não precisava mais, estava eu saindo do prédio onde trabalhava e vejo ele. Ele. Não alguém parecido com ele, não um rapaz de camiseta verde. Era ele, pessoalmente, ao celular, sorrindo e conversando. Minhas pernas amoleceram, eu voltei para o prédio. Lembrei de tudo, todas as vezes que dormi cheirando a camiseta da Irlanda que ele esqueceu em casa. A tristeza que cada elemento me trazia. E lembrei o mais importante: eu tinha voltado para mim. Se era feita de tristeza, era outra história. Saber que ele estava lá fora, sorrindo o meu sorriso para alguém, nem me interessava. O meu "ele" não existia mais. Morreu junto com o nosso "nós".


Então eu saí. Ele ficou olhando e eu segui. 
E continuo seguindo.














***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***



terça-feira, junho 09, 2015

O cara do sorriso branco e reto

Ele ria como um tilintar de ferros, e eu tremia como uma foto 3x4 mal tirada, nervoso, gim, brilho, luzes vermelhas. Somos o que há de melhor. 

Sempre prezei pelas minhas lembranças, as vezes até mesmo em detrimento das minhas experiências. Entende? A minha preocupação com o que lembrar quando for velha é superior a vontade de fazer com que as experiências sejam duradouras. 

E então ele veio, entrou no bar, sentou do meu lado. Percebi que o cabelo dele agora tinha uma mecha longa que se destacava de toda a cabeça de cabelos curtos, que coisa odiosa. A infanta barba tentava despontar, mediocremente. Vestia um moletom de capuz, uma calça jeans escura e um desses tênis horrorosos cheios de molas no solado. Só que, ninguém nunca vai entender que não importa como ele estivesse vestido. Desde que eu pudesse dar uma olhada naquele sorriso reto, branco, brilhante e convidativo. Cara! Eu nunca gostei de nada na vida da forma como gostava de olhá-lo sorrindo. Eu gostava de olhá-lo até sem face, gostava de olhá-lo até se ele não olhasse para mim. Até se soubesse que era tudo artificial. 

Mas eu estava ali. De toda uma multidão de pessoas no mundo, de todas as pessoas que já tinham conhecido ele, de todas as mulheres que já se interessaram por ele, de todas as pessoas naquela sala de faculdade, era eu quem estava ali. Não podia ser coincidência. 

Já ali, eu era capaz de lembrar de todas as vezes em que conversamos. Todas as palavras que ele já falou comigo. Sobre meu relógio roxo, sobre minha bolsa pesada, sobre meu All Star de velcro, sobre cigarros, sobre mulheres, sobre os pés das mulheres, sobre homens, sobre barbas. 

Eu tenho as melhores lembranças, até os momentos de briga e discussões que me faziam acha-lo um idiota, contam nestas lembranças. Até os últimos momentos antes do último momento. 

Ele pediu um cigarro, eu, que sempre fingia que não estava me importando com ninguém, coloquei sobre a mesa cigarro e isqueiro. Nenhuma palavra, eu me sentindo extasiada, ele comentou que eu estava bonita. Me ajeitei no banco do bar, entrelacei os dedos e esperei. 
Fui invadida, a sensação era como se tivessem tirado meu cérebro do lugar, dado uma chacoalhada e colocado no lugar. Todas as coisas e placas passavam como borrões numa tele transferência. Só tinha sobrado ele ali na minha frente, me beijando. 
Ele me faz correr e perder todas as coisas como um barco perde o rumo sem poder manter controle dos elementos que o fazem funcionar. As vezes eu me sentia um fantoche e era um prazer ser manipulada por ele. 
Bob Marley começou a tocar, estragando meu momento. 

Era o início de uma parte da minha vida, a melhor de todas. 



***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***

segunda-feira, novembro 03, 2014

As drogas do povo contemporâ​neo

Recentemente descobriu-se que o grande escritor dos anos 20 do segundo milênio, Maicon Romaldo, autor de vários livros importantes para o desenvolvimento da nossa tão rica literatura e até hoje o único laureado na categoria Literatura pelo já extinto Prêmio Nobel, era viciado em drogas como refrigerantes e cigarro.


O escritor que nasceu em 1995 na cidade de Itapevi e morreu num acidente de trânsito em São Paulo em 2028, onde morou por toda a vida, teve o auge de fama entre 2011 e 2028, com o lançamento da trilogia, "Um Morto Muito Louco", poesia que falava de vários tipos de entidades que o povo desta época costumava acreditar e alimentar sentimentos positivos.
Atualmente, já sabemos que as drogas hoje ilícitas como refrigerante e cigarro de nicotina e alcatrão, eram distribuídas e vendidas em qualquer lugar, podendo existir para aquela época inclusive, máquinas de refrigerantes nas ruas, onde qualquer pessoa conseguiria se drogar com uma lata de alumínio contendo o líquido de Coca-Cola por exemplo, em seu interior. Os cigarros também eram algo comumente vendidos, lugares denominados "botecos" eram em sua maioria, os principais distribuidores de tal droga.

Em um documento encontrado pela equipe de pesquisas arqueológicas da grande Universidade Nove de Julho, foi concluído que Maicon Romaldo era dependente de Coca-Cola, sendo esta muitas vezes a responsável pelo seus devaneios nos seus livros e também o cigarro, mais específicamente, Marlboro Vermelho, um tipo extremamente forte da droga que provoca os mais diversos tipos de reações a quem o consome.

Provamos mais uma vez, o quanto o povo contemporâneo era demasiadamente viciado em drogas pesadas, motivo pelo qual talvez justifique a falta de grandes produções em vários âmbitos do intelecto da época.

Folha de São Tanás - 23/10/2156 - Kiev Cristo