quarta-feira, julho 27, 2016

A fuga do notívago

O cheiro fétido da rua com esgoto vazando enchia o nariz, mas depois de 15 minutos passava a ser “acostumável”.

Tinha uma vontade imensa, insubstituível mas não conseguia satisfazê-la. Eram três e meia da madrugada e ele estava no meio da rua. Andando em círculos, meio sem rumo. Insone.

Um grupo grande de mendigos dormia na praça a sua frente. Alguns poucos travestis faziam ponto do seus serviços oferecidos também na praça. A frente, revelado por árvores, aparecia o imponente prédio da Secretaria de Educação de São Paulo, com sua coloração em tom de amarelo parecendo feita de tijolos de ouro.

Fazia 21 graus, era Março de 2012.

Aurélio sentara num ponto de ônibus, tentava se concentrar no que queria estar fazendo naquele momento.

Claro, tinha muita coisa que podia estar fazendo. Mas ele queria estar com sua filha.

Apagou o quinto cigarro dessa noite, já fazia 3 horas que estava perambulando pela República. Já era a oitava noite não consecutiva que fazia isso, estava realmente com muita saudade de sua filha.

Ela tinha 4 anos, estava morando na Alemanha com a mãe dela. Nunca imaginou que o fruto de uma noite inconsequente fosse gerar um amor tão grande. Ela tinha a diastema igual a sua e covinhas como a mãe.

Fechou os olhos, viu ela brincando com uma penca de brinquedos que Aurélio guardava em sua casa para quando ela voltasse ao Brasil.

Um homem estava sentado na extremidade do longo ponto de ônibus que escolheu, mas parecia enrolado num cobertor e adormecido. Permaneceu de olhos fechados no ponto de ônibus, com as mãos no bolso e em pé.

Sentiu um tipo de paralisação do seu corpo, por um milésimo de segundo.

Algo havia mudado. Ouviu um zunido alto de vento. Abriu os olhos e estava num quarto, um grande pôster do Gummy Bear o saudou numa parede do lado esquerdo. Uma cama tipo dossel estava levemente iluminada no centro do quarto.

Era sua filha, ressonando, dormindo gostosamente em algum lugar da Alemanha. Sorrindo, acariciou sua bochecha.

Não entendia o que tinha acontecido mas ele estava realmente no quarto dela. Colocou a mão em seu próprio rosto, tocou uma espinha na testa e sentiu uma leve pontada de dor, o que provava que era real aquilo.

Abraçou sua menina, que acordou assustada no mesmo minuto resmungando “papai!”

Quando a largou, durante uma piscada, voltou a estar no ponto de ônibus da República.

Não entendia nada do que tinha acontecido. Mas sabia que era real, a imagem de sua menina ainda estava gravada na retina.



"Eu sei que quando anoitece
Nos teus sonhos também estremece
A vontade de fugir, então siga por ali
Vire aquela esquina e vamos partir"

terça-feira, julho 26, 2016

Paisagem Idiótica

Estava a olhar para uma paisagem que eu chamo intimamente de Paisagem Idiótica.

Lembrei de alguém que me contou que havia um lugar do mundo que as pessoas podiam escolher morrer. Não era eutanásia, nem suicídio assistido. Era assassinato mesmo, as pessoas que queriam morrer iam vendadas para um campo entre montanhas onde eram acertadas por um tiro certeiro. Era um método clandestino, as autoridades faziam vista grossa e tudo aquilo era um tipo de serviço social.

Quando me contaram isso, pensei na mesma hora na agonia que deve ser ir para um lugar esperar a morte.

Seria mais agonizante do que a tal paisagem?

Um mar de vidros e ar condicionados grudados na janela, com um pequeno recorte azul do céu que passava despercebido, enquanto a gente acha que viver é acordar e vir pro trabalho e ela passa na nossa cara todo dia.

Recentemente uma propaganda me chamou a atenção, ela falava da natureza implícita em nossas vidas sem percebermos, e como estávamos desperdiçando o espetáculo todo dia. O vídeo do comercial dizia algo como “embaixo do prédio, terra”. Os publicitários envolvidos nessa propaganda tinham noção de estar perdendo toda essa natureza hipervalorizada ao ficarem em escritórios criando algo voltado para alimentar o consumismo?

Queimei meus dedos na ponta de um cigarro, era o meu momento de descanso chegando ao fim.

Saí da janela do escritório, abandonei a paisagem.

De volta a mesa, problemas que eu não podia resolver. E nem queria resolver. Não eram meus. Porém, me garantiam salário no fim do mês.

Era como se depositassem um saco de 50 kg em cima dos meus ombros e me dissessem o tempo todo “não se mexa, você aceitou não se mexer quando topou trabalhar aqui”.

E todo dia, no fim do expediente, eu saía do trabalho com uma sensação mais leve de deixar o peso la dentro do escritório, mas ainda assim, dolorido por tê-lo aguentado sobre os ombros o dia todo. Era uma sensação feliz, o fim do expediente, mas era também meio triste. Era como se eu soubesse que não dava tempo de fazer muitas coisas até ter que voltar pro escritório no dia seguinte. E por achar que não dava tempo de fazer muitas coisas, acabava não fazendo nada.

Eu era inconformado com a Paisagem Idiótica.

Era a cobertura comercial de onde eu trabalhava, na Grande SP. Era uma vista desoladora de pessoas enjauladas, suponha que você visse um dia bonito numa imagem, e nessa imagem tivessem vários animais fofos e meigos em jaulas e gaiolas? Era essa minha sensação. “Mas Aurélio, e se os animais quiseram estar nas jaulas e gaiolas por terem comida garantida?”

Aí eu concluo de que é ainda mais triste, a Paisagem.

No metrô, silencio. Cada um com seu celular.

Quando era menino, eu achava que ser adulto era conversar com todo mundo, conhecer todo mundo, poder falar o que quiser com quem quiser. Porque eu sempre ouvia “não fale com estranhos” e achava que isso era só porque eu era criança. Ninguém nunca diz “não fale com estranhos” para adultos. Agora eu entendo o porquê.

O estranho é você.

Todo mundo se torna estranho.

Queria muito que fosse como eu achava que seria. Achava que ser adulto era legal, e de alguma forma, estava intimamente ligado a natureza, porque não conseguia viabilizar uma cena que não tivesse uma arvore, um ceu, um pedaço de terra.

Mas a gente passa de trem por algumas arvores e as vê gritando “pelo amor de deus, me dê atenção, eu sou a natureza” e acha normal encontrar tudo cheio de lixo.

No dia seguinte, de volta a paisagem onde eu sempre morro e renasço pronto pra morrer no próximo dia com meus 50 kg de problemas dos outros, eu cheguei à conclusão de que estamos sempre no limiar da morte. Como se todo dia pudéssemos ir pro lugar onde tomaríamos o tiro certeiro e antes do derradeiro fim, desistíssemos. Nós, os estranhos, alimentamos uma esperança igualmente estranha.

Como se soubéssemos que não tem jeito, que nada vai mudar nunca. Minha geração não conhece outra verdade quem não seja essa de trabalhar. Mas ficamos planejando quando um dia isso pode acabar.

Essa noite não consegui dormir. Fiquei variando de madrugada, sonhei que uma onda gigantesca açoitava a paisagem idiótica até destruí-la completamente, seus ar-condicionados despencando, as pessoas nas jaulas caindo fatalmente e eu observando tudo da janela do meu escritório, com um cigarro nos dedos.

Talvez essa fosse minha estranha esperança.


"Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida."


quinta-feira, junho 23, 2016

FACILITE O TROCO OU ENTÃO LEVA BALAS

– Deu R$ 5,20 senhor.
– Toma aqui uma nota de 10.
– Tem 20 centavos?
– N…n…não…
– Cara, é melhor que tenha…
– NÃO POR FAVOR CARA EU TENHO FAMÍLIA
– DÁ LOGO A PORRA DOS 20 CENTAVO
– EU NÃO TENHO
– AH ENTÃO VAI LEVAR BALA
– NÃO CARA POR F… (sons de tiros)
– …
– Da próxima vez, facilite o troco.



terça-feira, junho 14, 2016

Monólogo intimista sobre o capitalismo

Eu sentia uma raiva inexplicável desde os 11 anos, e nada neste mundo foi suficiente para suprimi-la ou consolá-la.

Não entendia porque algumas pessoas podiam ter coisas, comprar coisas que eu não podia ter. Quando criança, achava que a culpa era de meus pais que tinham dinheiro e não queriam comprar. Até que fiz aniversário uma vez, 12 anos acho, e pedi um Nike a minha mãe. E só então depois de ver o esforço que ela teve que fazer para me presentear com um tênis de 300 reais, é que notei que havia algo errado. Não era minha mãe. Não era o tênis. Não era o trabalho desvalorizado da minha mãe como professora, que pagava ralo demais.

Era que eu tinha que ter o tênis, e porque queria era complicado demais explicar. Toda aquela baboseira que muitos já sabem sobre se vestir com roupas de marca para mostrar que você é alguém, todo o blablabla da adolescência.

Mas não bastava desconstruir isso. Eu podia ter me tornado um adolescente de 17 anos que usava um tênis barato e popular e não dava a mínima para marcas. Mas esse lance todo de marcas foi só a ponta do iceberg.
Tinha amigos na mesma situação. Então percebi, 90% das pessoas que eu conhecia eram pobre. Não tinham como esbanjar dinheiro comprando um tênis da moda sem desfalcar dinheiro de algum lugar.

E a raiva continuava, como um animal rugindo dentro de mim.
Então, aos 17 entrei no primeiro emprego. E a ficha da realidade caiu como um elevador solto no fosso.

Então pra eu ter um tênis e ser socialmente aceito, devia passar horas sentado a frente de um computador realizando ligações e causando incomodo as outras pessoas... aquele emprego era errado por diversos motivos. Mas mesmo que eu listasse porque aquele emprego era tão ruim, a questão não era o emprego. A questão era porque trabalhamos e porque tínhamos que trabalhar, porque devíamos nos preocupar tanto em ganhar dinheiro e querer ter dinheiro, sabendo que nem se trabalhássemos a vida toda, não teríamos 1% do dinheiro que 1% da população tinha, e que havia uma grande quantidade de pessoas no mundo que jamais teriam nem ao menos as mesmas oportunidades que eu tinha pra ter a minha miséria.

Eu não podia ser grato a tudo isso. Não queria me conformar com a miséria, nem com a venda do meu tempo, disposição e juventude em troca de dinheiro. Eu queria trocar meu tempo por algo que fizesse sentido.

E seguia com raiva inflamada no peito. Berrando, vibrando e me avisando que um dia escaparia para fora de mim.

Diante de tanta revolta crescendo como um cogumelo na chuva, alguns outros pontos foram sendo esclarecidos, até virar um problema claro, óbvio e constante no meu vocabulário: o capitalismo.

Eu sempre me lembrava do Nike com certo peso na consciência, porque fiz minha mãe comprar um Nike na adolescência só para mostrar que tinha um tênis de marca. Ficava, naquela época, a manhã inteira assistindo TV, desenhos animados e seriados mostrando a vida estereotipada dos norte-americanos, seus Nikes, seus celulares, seus carros. Eu fui enganado a adolescência inteira. Fui seduzido para ser como eram aquelas pessoas, imaginando que se fosse como elas, os problemas que eu sentia passariam. A raiva que rugia, não existiria, porque aquelas pessoas não tinham a aparência de ter raiva dentro de si. Mas foi só ganhar o Nike pra perceber que era tudo mentira, depois do tênis eu ainda me sentia pior. Mais pobre, com aquelas pessoas norte americanas ainda mais distantes de mim, porque para mim, ganhar um Nike era um evento, para elas era comum.

Isso foi amadurecendo de uma tal forma durante o período do meu primeiro emprego, que comecei a idealizar uma vida sem dinheiro. Mas quanto mais idealizava, mais achava impossível conseguir, não com a TV, rádio e outdoors bombardeando o tempo todo de que você precisa de coisas que você não precisa e ter o corpo predeterminado por marcas, empresas e grupos de pessoas que não sabem nada sobre você e te tratam como número. E mesmo que com o tempo você se torne imune a propaganda, as pessoas ao seu redor não, e cobram de você a vida que o capital quer que você tenha.

Aos 20 anos fui vencido. Estava cursando uma faculdade cujo objetivo era formar pessoas para o mercado de trabalho, e claramente eram censurados os ensinos que se desviassem desse foco para algo mais culto e acadêmico. Eu estava lá, fazendo parte desta palhaçada, trabalhando e tendo medo de perder meu emprego, tendo medo de ficar sem dinheiro. As coisas que possuía, acabaram me possuindo. O desejo de tê-las também. A cobrança da família e do capital latejavam em minha mente. Me envolvi com movimentos sociais na esperança de amenizar a sensação de fracasso, e acredito que muitas das pessoas que conheci lá também tinha isso em mente. Mas, a burocratização de como esse tipo de coisa se dá hoje em meu espaço, não por acaso, era desmotivador.

Depois dessa experiência detestável e frustrante, onde muito se quer fazer, mas nada é feito de fato, a raiva, aquela que ficava rugindo e vibrando dentro de mim, alastrou.

As pessoas criam esperança onde menos parece provável. Em algum deus, por exemplo. Algo sobrenatural para salvar-lhes dos problemas que elas tem. Criam teorias baseadas em relíquias históricas, levam a sério algo porque alguém antes dela levou a sério e usam disso para justificar todos os atos que o capitalismo lhes obriga a fazer. Inventam, mentem e manipulam sem dó, porque todo mundo quer o perdão por ver tanta coisa absurda sendo feita e não estarem fazendo nada. Não é normal que 1% da população seja rica e possam ter seus Nikes enquanto o resto se mata para ter um, mas o capitalismo faz você achar que sim. E a religião justifica isso, ou perdoa. Mas todos sabemos que é tudo mentira, no interior de nossos corações. As religiões são uma mentira.

Em outros casos, há a alienação. Teóricos muito inteligentes já explicaram sobre isso muito antes de minha mãe me dar a luz. Mas a questão não é tanto a alienação de fato, porque acreditar que ainda hoje no séc. XXI há pessoas que não conseguem ver o que está acontecendo, que estamos nos matando por dinheiro, é impossível. Todos sabemos o que está havendo, sabemos que há algo que não deu certo, e que não devíamos nos conformar. Mas nos conformamos. E pior, deixamos que todos acreditem que nós não estamos vendo. Que nosso único interesse é o pão e circo. Pior que mentir para os outros, é mentir para si. E quando fingimos que não vemos as mazelas do capitalismo, estamos mentindo para nossa própria existência.

E mais recentemente, é fácil observar o que eu acho que é o pior caso de todos, que é quando, a balança dos sentimentos ruins fica mais pesada que a balança dos sentimentos bons, na relação entre as pessoas. O pior dos casos, é quando o indivíduo concorda com o estupro mental e financeiro do capitalismo. Quando apoia e se afirma militante ativo das causas capitalistas. Talvez já calejados de sentir a raiva batendo quando o consumismo vence, quando o desejo pelas coisas se torna superior do que a compaixão e o caráter.

Você não é o que você tem, você não é as coisas que compra. Falta entender que tudo no capitalismo é efêmero, o tempo é a única coisa que possibilita alguma riqueza. Cabe saber do que vale a pena ser rico.





Eu sou a constante especulação de Jack.

segunda-feira, junho 13, 2016

Esperando pt. 1

EXT. PONTO DE ONIBUS CHEIO DE UMA AVENIDA MOVIMENTADA, FIM DE TARDE


Dois homens de roupa social esperam seus respectivos ônibus em pé, sem se olharem e ambos olhando para a rua, no sentido de onde vem os ônibus.

HOMEM 1

Sabe, queria fazer algo significativo, que desse sentido a minha vida. Um emprego que mudasse a vida das pessoas, que fosse de fato importante!

HOMEM 2

E o que você está esperando?

HOMEM 1

O ônibus, e você?

HOMEM 2

Também...

terça-feira, maio 24, 2016

mais uma história de não-amor em São Paulo

Eu não me lembro como nem porquê puxei conversa com um senhor que catava latinhas. Era cinco da manhã, o primeiro ônibus do dia pra minha casa estava para passar e eu deveria manter a atenção.
Mas não resisti, achei que aquele senhor poderia ter um bom papo, talvez pelo bom gosto de se vestir usando All Star vermelho cano alto mesmo sendo simples e aparentemente, um morador de rua.
Disse que o All Star estava com ele há muitos anos, desde a época do divórcio.
Fiz a besteira (ou não) de perguntar “Que divórcio?”
E eis que o senhor começou a me contar uma história, talvez a sua, talvez ficção. E eu lhe dei atenção, talvez por estar bêbado demais para me negar a isso.
Ele me disse que a tinha conhecido na faculdade. Ele cursava Matemática e ela Letras “com ênfase em Sueco”, como fez questão de me lembrar.
“Se chamava Sandra, tinha um ar hippie. Sorriso bonito, delicada mas pragmática. Prática.”
“Então o senhor tem ensino superior?” o velhote fez um “o” completo com a boca, surpreso. “Mas claro que tenho meu filho, eu tenho mestrado na Bélgica, inclusive”.
Percebi logo que poderia ser verdade, uma vez que notei que o senhor não falava com muitos erros e tinha um porte diferente dos demais moradores de rua.
Continuou me contando que começara a namorar Sandra durante uma greve dos professores de sua faculdade. Ela era do movimento estudantil, naquela época, anos 70, ser do movimento estudantil geralmente era o mesmo que se dizer de esquerda. Ou seja, para a época: comunista.
Acendi um cigarro, ofereci, negou.
Se apaixonaram automaticamente, começaram a namorar ao mesmo tempo que cursavam o último semestre de seus cursos.

Após a formatura, começaram a se afastar gradativamente da política. Queriam executar seus planos, queriam constituir família. Mas ele tinha medo, Sandra é que pressionava. Eram de famílias digamos menos pobre que o resto do Brasil. Afinal, nem ele nem Sandra nunca haviam pago a faculdade com dinheiro de seus trabalhos, mas sim dos seus pais.
Ele arranjou emprego numa grande multinacional, fruto do contato de seu pai com diversos executivos e o próprio CEO da tal empresa de origem francesa. Em três anos nessa empresa, teve que se mudar para França, e aí não havia mais como adiar o casamento que Sandra tanto queria.
Casaram-se ainda no Brasil, tradicionalmente como gostava as famílias de ambos classe média.
Foram para França em 83, e não queriam saber mais de nada.
Sandra não trabalhava, mas também não precisava, ele provia todas as despesas da casa tranquilamente com o salário deste emprego.
Aprenderam francês juntos, aprenderam a viver confortavelmente em For Sur Mer, fizeram amigos, e Sandra engravidou em 1986, depois desses três anos muito confortáveis. Ele até queria voltar para o Brasil mas agora com essa gravidez, o melhor era continuar vivendo ali até que o bebê tivesse uma idade razoável.
A criança, menino, cresceu com nome de Edgard, sendo educado numa escola franco-brasileira que lhe permitia desenvolver tanto o português como o francês. Aprendeu tudo o que podia sobre as artes e era um exímio artista.
Neste momento meu ônibus passou, mas fingi que não vi e continuei a ouvir a história. Era mesmo improvável que o homem bem sucedido dessa história hoje tivesse catando latinha na Rua da Consolação. Então eu queria saber até onde ia.
O menino ainda mora na França, em Pertuis, próximo de onde cresceu com ele e Sandra. É artista plástico.
Pensei, e como pode deixar o pai neste estado, com idade tão avançada?
Continuou me contando a história, mesmo tendo percebido que algo me passava pela cabeça. Esse velho é bom, pensei.
Cinco anos depois do nascimento de Edgard, era hora de planejar a volta para o Brasil. A empresa pedia, a família concordava, então que voltasse.
Disse que veio no início de 1991 aqui em São Paulo para acertar detalhes de moradia. Trouxe Sandra e o menino. O casamento ainda ia bem.
Voltaram para a França depois entusiasmados com a mudança, a volta pra casa. E então Sandra descobriu que estava grávida de novo.
Adiaram longos e frios 6 anos de volta ao Brasil. A criança, menina desta vez, nasceu saudável, alegre e linda. Era o centro das atenções da família. Isadora, loura de cabelos finos e delicados, ficou com toda a beleza da família nos genes.
Eu vi nessa hora um lampejo louro nos cabelos sebosos do senhor, talvez ele tivesse sido apresentável um dia. Sem cheiro de sujeira, sem buracos remendados em sua blusa de lã.
O dia estava nascendo, era um domingo de manhã e ainda tinha gente estranha bêbada voltando das baladas.
Mas eu quis ouvir o resto da história, e o convidei para ir tomar um café numa padaria perto da República.
Uma vez na padaria, pingado e pão na chapa, me contou que nesses seis anos finais em For Sur Mer, resolveu estudar. Se sentia sufocado “aquela coisa que dá depois de 10 anos casados”. Então fez mestrado em Ciencias Econômicas e alguns MBA, em várias universidades pela Europa. Chegou a ficar 3 ou 4 anos fora, apenas estudando. Voltava para casa aos feriados e férias, ficava um pouco com a família, mas não sentia saudade. “Eu era frio, meu filho. Eu não ligava para eles, achava que meu dinheiro sustentando-os era suficiente”.

Quando parou de estudar, notou que havia perdido boa parte da criação de sua menina, uma parte importante do crescimento de seu menino e o pior de tudo, o amor de sua Sandra.
No início dos anos 2000, já de volta ao Brasil há 2 anos, morando confortavelmente em bairro nobre de São Paulo, ficou mais 7 anos forçando um casamento que não queria mais.
Trabalhava muito, viajava muito a trabalho, e perdia de propósito os momentos importantes com a família.
“De propósito”
“Porque de propósito?”
E me explicou que havia se enganado sobre Sandra. Que ela já não era mais a menina hippie de sorriso encantador. Ela era uma quarentona chata, com a bunda caída e que não saia de casa, não se vestia direito nem para si nem para ele, engordou, “enfeiou”, como fez questão de dizer.
Que babaca, logo pensei.
Em 2007, numa viagem a trabalho em Nova Iorque, conheceu uma arrumadeira num hotel que estava hospedado. Brasileira, imigrante ilegal.
Começaram a sair, ela era 15 anos mais nova que ele e isso parecia o máximo para ele.
Não sabe dizer se era apaixonado por essa. Mas se divorciou de Sandra, deixando-a com Isadora.
Essa moça, 15 anos mais nova, era simples, do sul, não era um poço de beleza e nem era culta como Sandra. Mas era o suficiente, cuidava dele e o fez sentir-se rejuvenescido. Mesmo que sua menina não gostasse dela. E nem ela de sua menina.
Um dia brigaram feio, a filha e a moça. Então depois disso perdeu contato com todos, só falava de vez em quando com Edgard que continuava na França.
E então, me disse que um dia a moça lhe pôs pra dormir e levou tudo o que tinha. Dinheiro, documentos, relógios, joias, absolutamente tudo. Passou bens para seu nome, tinha procurações falsas. Fez um esquema tão bem preparado, planejado há anos quem nem a aposentadoria ele conseguia provar ser sua.
Sem conseguir provar nada a respeito de sua verdadeira identidade, foi morar na rua.
Contou que o arrependimento por ter deixado Sandra recaiu sobre seus ombros de uma forma tão cruel, que ficou dois anos sem pronunciar nenhuma palavra. Achavam que ele era mudo. Mendigo e mudo.
“E como se recuperou?”
“Eu vi Isadora e Sandra saindo do hospital, ano passado. Isadora a levou. Meu peito quase explodiu!”
Disse que passou a acompanhar todas as idas das duas no hospital. “Ali no Albert Einstein sabe? Eu fico por ali agora.”
Perguntei se teria coragem de abordá-las. Ele disse que sim, e que estava catando latinha para conseguir algum dinheiro para ficar decente e falar com elas. Não queria que elas o vissem como um mendigo. Mas disse que havia 2 meses que não via as duas indo ao hospital e que tinha medo de que algo tivesse acontecido. “Sandra deve ter uns 70 anos agora. Estava bem velha quando a vi”
Percebi que seus olhos estavam marejados. Não quis imaginar o que haveria de acontecer a este senhor se Sandra tivesse morrido. Tirei uma nota de 20 do bolso e lhe entreguei. Dei dois tapas amigáveis em seus ombros e me despedi.
Lá fora, o céu azul bem claro, a poluição, as buzinas, dava o tom de normalidade paulistana. Eu não tinha uma boa sensação, mas não havia porque se preocupar, eu não era casado, eu não tinha Sandra. Meu ônibus passou, entrei.
Eu nunca mais saberia se Sandra estava viva, o amor da vida de um homem que eu nem sabia o nome, mas torcia pela história. E que história. 

sexta-feira, abril 29, 2016

Teoria do Céu


Você sabe que tem uma rotina chata e desgastante. Você tem plena noção de que se pudesse, nunca perderia seus preciosos dias dentro de um escritório fazendo coisas que não te dizem respeito.

Você sabe que gostaria mesmo era ver aquele sorriso que você ama, da pessoa que você ama mais, sabendo que aquela é uma imagem que você nunca mais vai se esquecer, aquela linha perfeita de dentes brancos te sorrindo, cuja a vontade, é a de ter todos os detalhes, todas as voltas daquele sorriso para si.

Mas aí você se dá conta de que na vida, o que mais há é contradição. E olha pro céu procurando a paz que precisa para formular suas conclusões sobre os momentos de frustração, procurando respostas, ou as perguntas certas, tentando evitar as verdades absolutas, tentando não lembrar, não pensar toda hora, se concentrar, e virar a cabeça pra baixo. Mas também é olhando pro céu que você mais se lembra, se flagra sorrindo sem querer lembrando do cheiro, do tom da voz numa risada, da sombra recortada numa luz fraca. É reconfortante imaginar que você não é o único a olhar pro céu, que o mesmo céu que te banha, é também o céu que cobre a pessoa a qual pertence o sorriso amado. É reconfortante pensar que mesmo longe, estão perto, que mesmo em mundos diferentes, ainda existe um céu que os cobre.

Para dias chatos comuns, para momentos ruins normais, olhe para o céu.


quarta-feira, abril 13, 2016

Quatro Carolinas Por Favor

Frio batendo na bochecha toda vez que a porta do trem abre. Mas do pescoço para baixo, o corpo é só um pedaço do enlatado que o trem se transformava as 6 da manhã de Francisco Morato sentido Luz, em São Paulo. Um amontoado de gente que faz com que a ideia de se mexer pareça algo ousado.
Já na estação da Luz, o amontoado agora ousa se mexer e ruma sentido qualquer uma das portas de saída, como bois criados em confinamento.

2014. Maio. Estava chovendo, levantei o capuz do moletom para não estragar a lobeca caprichada pro trabalho.
Passar no meio dos mendigos era rotina, precisar de dinheiro todo mundo precisa. "Não tenho moeda moça, se quiser eu tenho um pacote de bolacha aqui", abri a bolsa e entreguei o pacote de Triunfo na mão da criança que uma moça moradora de rua segurava enquanto me pedia dinheiro.
Pede dinheiro e ganha comida, devia estar feliz.

Cheguei na Padaria "Princesinha do Riskallah", vesti o avental, coloquei a touca cuidadosamente para não estragar o penteado, "bom dia Sr Jorge", "bom dia meu filho" liguei a chapa e comecei.
Pão de queijo, Sonho, Língua-de-sogra, Pão na Chapa, pingado com açúcar, não, sem açúcar, capuccino, café puro, Misto Quente, Pão com Mortadela, requeijão e Carolinas.

Carolina morava num prédio ali na frente da padaria e eu a atendia todo dia. Cheirosa, morena, alta, esperta. Pedia 4 carolinas e ia-se embora. Eu tímido, ficava olhando ela desfilar pela padaria todo dia sem conseguir articular qualquer coisa. Vez ou outra ela conversava com Seu Jorge, o dono da padaria, falava sobre política e rumava para Santa Ifigênia com um aroma de calêndula que ficava para trás.

Esqueceu o celular em cima do balcão naquele dia, peguei antes que qualquer um visse e enfiei no bolso da calça. Entregaria a ela pessoalmente, como uma missão.

A caixa da padaria, Dona Adriana, esposa do Seu Jorge, suspeitava que eu tivesse algum tipo de interesse em Carolina, porque sempre que ela ia embora eu ficava acompanhando com o olhar. Dizia ela "Sossegue menino, Carolina não é pro teu bico, se engrace com essas meninas que frequentam os bailes que você vai la na sua área".
Eu era chapeiro, negro e da periferia, frequentava baile funk e roda de rima, usava camiseta larga e mostrava a cueca. Não estudava mais porque tinha que trabalhar muito e contribuir em casa.
E uma moça poderia me rejeitar por ser assim, eu jamais entenderia.

Depois do trabalho na padaria, rumei pro segundo emprego, ainda com o celular no bolso,
Pouco antes de entrar no prédio da Contax, lá no Brás, olhei para ver se tinha alguma coisa, e em questão de segundos um menino veio correndo e tomou o aparelho da minha mão.  Joguei a mochila e saí disparado atrás do moleque em pleno horário de almoço abarrotado de carros parados na  Rua Piratininga. Ele entrou por uma viela, se escondeu numa casa muito pequena e bateu a porta, comecei a esmurrar a porta e nada. Saí, e mal sabia o que pensar, o que fazer, mas eu precisava pegar de volta o celular de Carolina. Pessoas entravam e saiam, a viela era uma pequena vila com varias casinhas humildes, um chão de cimento quebrado com um enorme esgoto aberto, coisas que já não eram novidades para mim. Comecei a interceptar as pessoas e elas se afastavam como se o ladrão fosse eu, mas, por deus, eu era a vítima!

Um homem se propôs a me ajudar. Alisava o bigode enquanto eu contava para ele como fui roubado, depois começou a bater na porta da casa onde estava o ladrão, chamando por um nome, "Pinote".
"Ô Pinote, saí aí vamos conversar, se não sair o moço vai chamar a polícia".  A porta abriu e saiu o ladrãozinho que agora eu já sabia que era chamado de Pinote. Não devia ter nem 14 anos ainda,  uma criança menina de uns 2 anos descalça e com roupas imundas, cabelo igualmente imundo, e um rapaz de uns 19 anos, parecido comigo, roupa larga, cueca a mostra, boot no pé, piercing na sobrancelha e um bigode fino na cara. Saiu gingando, não vi o celular.

A conversa foi longa, se é que poderia chamar de conversa. Varias frases como "Cê ta ligado que a fita é essa e o bagulho é doido" depois, o resumo: eu teria que pagar pelo resgate do celular, e o malandro era duro na negociação. Como se tratava de um celular caro, queria que eu pagasse uma parcela de um carnê de sua moto, e já vinha com o carnê no bolso.
Àquela altura, eu fodido e atrasado no trabalho, comecei a rir. Pagar pra malandro devolver o celular que ele roubou, mil dinheiros nisso?
Quando ri, o Pinote disse "Falei que ele não ia aceitar Dinho, vamo vender e cê paga o carnê".
Olhei para o senhor de bigodes, ele fez um gesto como "não vai ter jeito rapaz". Dinho pegou o celular do bolso "iPhone 6 né? acho que até sobra moleque" .
Meu sangue ferveu. Deixar malandro crescido me passar para trás estava fora de cogitação.
Desferi um soco no tal de Dinho e tomei o celular, em questão de segundos. Saí correndo pela rua, voltei pela Contax e vi minha mochila "graças a deus a mochila". Quando virei a esquina da Rua da Alegria, não vi ninguém atrás de mim.
Já não ia mais trampar no segundo emprego aquele dia, então que se foda, iría para a Luz e entregar o celular a sua dona.
Desci na Sé, fui até o Largo São Francisco e vi o sol se por. Era cedo ainda.
Será que Carolina estava preocupada? Qual seria sua reação quando eu o entregasse?
"Oi Diego, tudo bem? O que você faz por aqui essa hora? A Padaria já fechou não?"
"Sim Carol" (poderia eu chamá-la de Carol?) "Você esqueceu seu celular, toma ele aqui"
"Oh muito obrigada! Gostaria de entrar e tomar uma água" e pronto, aí era eu e a morena.
Rumei para a Luz novamente, com  o pensamento só nela. Metrô lotado, suor, gente cansada, preferi descer no Anhangabaú.
E que má sorte, a policia militar me enquadrou na saída da estação e revistou. E ofendeu. E achou o celular. E para minha surpresa, o celular estava com a tela trincada. Trincou e eu nem vi, como entregaria o celular para Carolina daquele jeito?
Gambé olhou para mim com deboche, depois falou para os outros, "pode liberar, esse aí roubou um celular todo estourado", "eu não roubei" disse. A resposta do bota-preta foi um tapa na cara e a tela do celular trincada ligada com a foto de um cachorro com um laço na cabeça de fundo, bem no meu rosto.
Saí revoltado, humilhado e fui para a frente do prédio que sabia ser onde Carolina morava.
Eu ia devolver o celular assim mesmo.
Subindo a rua, vejo Carolina a minha frente voltando do trabalho, dez passos de distancia. Grito seu nome, mais de uma vez, e ela parece não ouvir. Corro a sua frente e digo "Oi". Ela se assusta mas me reconhece.
"Oi Diego, ta tudo bem", diz preocupada.
"Oi Carolin-"
"Eu não me chamo Carolina, me chamo Samanta" me interrompeu, séria, me encarando. "Seu Jorge me chama de Carolina porque compro carolinas todo dia no café da manhã".
Meu pensamento era só um: eita. Mostrei o celular para terminar tudo isso logo. Ela olhou e voltou a me fitar. "Não é seu? Não esqueceu no balcão hoje cedo?"
"Não", e me mostrou seu celular em sua mão, inteirinho.
Olhei para o chão, pensei em todas as coisas que me ocorreram por causa daquele celular e balbuciei "Ah então beleza, vou embora então".

Virei e saí querendo nunca mais ver Carolina/Samanta na minha frente e decidido em parar de ser vacilão com as mulheres.

"Você não quer uma água?" disse a moça sorrindo. Eu sorri de volta e subi para seu apartamento.

Até hoje não sei de quem é o celular.










segunda-feira, abril 11, 2016

O impronunciável

“Denis anda tão preocupado. Denis, todos cometem pecados.”

Eu nunca quis ser a Inês do Denis, mas acabei sendo.
E por um tempo foi bem divertido.
Numa noite éramos pichadores, e com alguns sprays desenhamos pênis voadores em todo o viaduto Jaceguai. Outro dia, éramos escaladores, e escalamos a estação de metrô do Brás. Sempre sorrindo, a mão de Denis estava sempre estendida para mim.
Ele era ridículo e não tinha vergonha nenhuma de ser. E eu embarquei na onda do ridículo com ele. Gostávamos daquilo, era uma liberdade gratuita que eu jamais experimentara. E então, Denis se apaixonou por mim, e eu me deixei levar por aquilo, curtindo cada risada do lado dele, descobrindo cada parte do corpo dele e interpretando qualquer porcaria que ele falava só para me fazer rir. Me deixei moldar pelo o que ele quisesse fazer de mim, e ele parecia até mais bonito quando a luz da aurora batia na minha janela iluminando parcialmente o quarto.

Ele sabia que ainda havia um animal semimorto habitando meus sentimentos, exalando o cheiro amargo da rejeição de outro. E isso acabava com ele.
Muitas eram as vezes que nos encontrávamos e eu não queria fazer mais nada, a não ser fumar e ouvir algumas músicas do Lulu Santos. E ele ficava me olhando, até que um dia ele perguntou qual era o nome do indivíduo que me deixou assim de coração tão partido. Olhando diretamente para os olhos dele, soletrei cada letra do nome do melhor amigo dele.

 Ele sabia de tudo, ele era da nossa panela de amigos, ele acompanhou minha história do coração partido inteira dos bastidores. E ele sabia que eu não podia gostar de ninguém porque amava o outro lá, o que me trocou pela Alice. O impronunciável. Que era o melhor amigo dele, e o responsável por ter nos unido numa brincadeira sem graça de terminar o namoro comigo e me colocar frente a frente com Denis.

Mas só muito tempo depois que eu entendi porque ele me perguntou.
Porque só saber não era o suficiente. Ele queria ouvir de mim se eu ainda amava o impronunciável. E quando eu soletrei o nome dele, era o que ele precisava saber. Eu amava de um jeito tão forte e intocado, que nem todo o amor do mundo vindo de Denis era suficiente para que eu ignorasse a existência disso.

Um dia de chuva, eu estava a esperar a chuva passar para sair da faculdade e ir a casa de Denis, pois ele estava gripado. E sorrateiramente, o impronunciável apareceu, com um aroma diferente do que eu conhecia.

 Eu meio dispersa, ele começou a puxar assunto. Perguntou de Denis, perguntei de Alice. E ele me informou que terminara o namoro com Alice.

 Eu ainda queria matar os dois, especialmente ele, mas naquele momento eu só queria o sorriso dele. E ele, inteiro, como quis por muito tempo.

 Então ele começou falar que se sentiu arrependido e que tinha sido um grande erro que ele me quisesse só como amiga.

Porque ele sentia falta de mim todos os dia, falou. E que vinha ensaiando me procurar há dois dias, desde que terminou o relacionamento com Alice. Eu chorando, saí andando na chuva, sem olhar para a cara dele porque, por deus, só eu sabia como estava sendo difícil me desfazer disso tudo. Foi difícil não pensar nele até pouco tempo atrás, quem me dera ser tão resistente naquela época.

Então ele me chamou pelo nome, e veio na chuva em minha direção, eu parei, ainda chorando, ele me abraçou forte e decidido e me beijou, com a camiseta verde encharcada.
“Nunca mais faça isso comigo, se fizer de novo eu acho que morro” falei usando todo meu potencial dramático. E ele pela primeira vez disse que me amava.

Então eu parti o coração de Denis no dia seguinte. E hoje ele está casado com uma esposa linda na Argentina, feliz aguardando o nascimento do primeiro filho.




“Dênis, o destino decidiu que você não tem escolha

Nem mais uma chance pra tentar tudo outra vez"


Graforréia Xilarmônica - Dênis





***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***

sexta-feira, abril 08, 2016

a troca

Claro que havia algo errado. Eu vi os dois sorrindo entre si de um jeito  bem estranho.
Estava eu sentada num banco do jardim que frequentávamos fumando e vendo os dois se aproximarem. Alice com um sorriso estranho de satisfação. Ele com o nariz um pouco mais arrebitado cortando os ventos e como se me desafiando a questionar porque ele estava tão feliz.

Toda vez que ele se aproximava, eu sentia aquele gosto de cerveja choca que lembrava o beijo delicioso que ele me dava. Mas já fazia algum tempo que não tinha mais esse beijo. Nem o sorriso com os dentes caninos levemente saltados, nem mais nada.

Alguns dias atrás ele me deixou na porta de casa dizendo que minha amizade para ele bastava. E eu, histérica, disse “e o meu amor por você, como que fica?”. Estava eu completamente, terrivelmente apaixonada e não sabia o que fazer com aquele sentimento todo rompendo-me ao meio.

Agora, vinha ele com aqueles olhares estranhos com Alice. Eu preferia a morte.
Mentira, não preferia, porque assim nem ao menos o teria de longe.

Entrei num estado de torpor quando ouvi “sábado eu e Alice vamos no cinema” dos lábios dele, horas depois de perceber esses olhares estranhos no nosso jardim.
Eu queria gritar “mas como assim vão ao cinema? Até alguns dias atrás era meu corpo que você passeava as mãos e foi assim nos últimos anos” mas tudo o que consegui era responder “legal, se divirtam por mim”.
E ele continuou me contando seus planos e revelou o mais maquiavélico de todos “você devia ir também com a gente e chamar o Denis”. Então era isso. Além de não me querer mais, ainda queria me empurrar para o amigo de piadas sem graças dele. E eu, que estava possessa e só queria ir pra casa chorar, mas não conseguia nunca falar não para ele, respondi “vou sim, vou chama-lo”.
Até o dia do cinema, eu era a pessoa mais fria do mundo com ele e com qualquer um da nossa panela de amigos. Eu era só dor e destruição, meu sarcasmo transbordava e eu não podia me controlar. Fumando um cigarro atrás do outro, mantendo todos os compromissos mauhumorosamente marcados com ele, seguia eu um poço de soberba e amargura. Porque ele não me queria, porque queria Alice.
Porque ele não era mais meu.
Numa partida de Uno mal jogada, eu perdi. E como pena por ter perdido, todos me desafiaram convidar o Denis para o cinema.
É que era humilhante sair com Denis. Porque Denis era o cara que todos da faculdade zoavam porque nunca namorava ninguém. Porque Denis tinha quilos de espinha na face e parecia ainda ter 16 anos, enquanto todos os outros caras da faculdade já tinham um porte mais másculo mesmo tendo mesma idade do Denis.
Mas chamei para o cinema.
E fui.
E foi como se eu aceitasse que eu e ele havíamos acabado, e que ele e Alice juntos estava tudo bem pra mim. Mas nunca esteve, eu queria matar todos naquele cinema.






***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***